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{ Monthly Archives } December 2001

CAVEIRINHA MY FRIEND E JONGO , O ANÃO MAU CARÁTER

Espoleta e Ardidinho eram dois palhaços , que faziam um enorme sucesso com o publico do Circo Aimoré . Já haviam percorrido todo o o noroeste do estado de São Paulo , o triângulo mineiro , e estavam no interior de Goiás , mais precisamente em Ipameri . Nossos protagonistas iriam realizar o famoso número no qual duelavem , porém , as armas que utilizavam em cena pertenciam aos motoristas do circo , que se esqueceram de substituir a munição tradicional por balas de festim .

Não podemos deixar de admitir que o número fora um sucesso , uma vez que , quando os dois braços , foram despedaçados pelas balas ( de verdade ) , a criançada pensando que se tratara de um truque , gargalhou com entusiasmo e aplaudiu frenéticamente .

A partir daquela noite , as apresentações da supracitada companhia circense passaram a serem enormes fracassos , uma vez que a figura de dois palhaços manetas , afugentava a platéia , Assim foi em Orizona ( a grafia é assim mesmo ) , Pires do Rio , Silvânia , Interlândia e Jaraguá .

Ao chegar em Ceres e Rialma ( cidades vizinhas ) , Viriato Malaquias , o dono do Circo Aimoré , decidiu demitir Espoleta e Ardidinho . Quando iria conversar com eles , entrou em seu escritório um próspero fazendeiro , que ofereceu uma quantia em dinheiro para que os integrantes do circo se fantasiassem de índios , e à noite fingissem atacar sua fazenda . O latifundiário sairia então à varanda de sua casa , e daria tiros com balas de festim , impressionando assim seus hóspedes estrangeiros ( que trabalhavam em uma mutinacional ) .

Viriato aceitou a proposta , e em seguida demitiu os dois bufões deficientes . Estes caminhavam indignados , quando , passando sobre a ponte que divide as duas cidades e olhando para o rio das Almas , Espoleta teve a seguinte idéia : enquanto o pessoal do circo estivesse na fazenda dando o showzinho combinado , ele e Ardidinho roubariam as armas ( as mesmas do incidente ) que os motoristas guardavam nos caminhões , e no instante que o fazendeiro disparasse tiros de festim , eles , por trás , disparariam com balas de verdade e eliminariam todos os integrantes do circo . Assim todos achariam que teria sido um equivoco do latifundiário , que teria , sem querer , usado munição verdadeira .

Assim começou a carreira criminosa de Caveirinha My Friend ( Espoleta ) e Jongo , o Anão Mau Caráter ( Ardidinho ) .

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A INCRÍVEL ESTÓRIA DE XÊNYA CHAPOLETTE

Nascida em solo francês , nossa protagonista chegou ao Brasil na infância , mas precisamente ao quatro anos de idade . Xênya Chapolette era descendente de Elisa Alicia Lynch , a irlandesa que fôra para o Paraguai , após o casamento com Solano López , e regressara à Europa , após enterrar ( com suas próprias mãos ) o ditador em solo guarani , em 1870 , falecendo em Paris na mais completa miséria .

Esta heranças do inconsciente genético talvez explicassem a mania de mademoiselle Chapolette , chorar copiosamente cada vez que ouvia antigas guarânias ( Anahí , Lejania , Mis noches sin ti , etc ) . A outra coisa que a fazia verter lágrimas eram as canções de Roberto e Erasmo Carlos , no mais era uma mulher forte & decidida , requintada & esclarecida ( tal qual a antecessora ) .

Xênya , que sempre tratara os homens com superioridade , se apaixonou ao avistar o cidadão apelidado Sabará , em uma padaria perto de sua residência . Após um ano de flertes entre os sucos de laranja , os cafés expressos e os pães-com manteiga-sem-miolo na chapa , ela se aproximou perguntando : “Olá , eu sou a Xênya Chapollete !!! Como você se chama ???”

O malandro de padaria olhou-a lentamente e após instantes de reflexão exclamou :”Eu sou o Sabará… escuta você é Tchutchuca , preparada ou cachorra ?”

Mademoiselle Chapolette retirou-se para voltar no dia seguinte , com terno-e-saia , gravata , chapéu e óculos escuros e cartazes com os dizeres “PELO AMOR DE DEUS” e “EU NÃO SOU CACHORRA NÃO” ; respondendo de forma Waldick Sorianesca as babaquices de Sabará . Este , obviamente não entendeu nada , ao vê-la desfilar com os cartazes na porta da padaria sob o olhar atônito e estarrecido dos frequentadores .

Xênya Chapolette , atualmente mora em um castelo em Galway ( Irlanda ) , pois casou-se com Leopold Dedalus , nobre que , em férias pelo Brasil , ficou comovido ao vê-la chorar após ouvir “Detalhes” ( Roberto Carlos/Erasmos Carlos ) em uma loja de CDs de um shopping qualquer .

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Citação do dia :

“Je vais vous dire un gran secret , mon cher . N’attendez pas le jugement dernier .

Il a lieu touts les jours .” (*)

(*) Vou lhe dizer um grande segredo , meu caro . Não espere o juízo final .

Ele se realiza todos os dias .


( Camus )

Citação do dia :

“Viver a solidez

da pedra ,

que medra

a solidão

do ser .”

( Mônica Montoro )

THE LADY FROM MONTEVIDEO

Alguns dizem que ela descende de uma família do subúrbio carioca do Encantado , que residia a cerca de duas ou tres quadras da residência onde morava a legendária cantora Aracy de Almeida …outros afirmam enfáticamente que ela nasceu em Frutillar no sul do Chile , a beira do lago Llanquihue junto ao vulcão Osorno…porém a verdade é que a mulher que ficou famosa pelo apelido The Lady From Montevideo , nasceu em Trabijú cidade do noroeste paulista , no meio do caminho entre Araraquara e Jaú .

Sua infância e adolescência são os mais completos mistérios , como também o é o fato de seu apelido ser em inglês …segredos do terceiro mundo …

Quando a dama com a supracitada alcunha , comecou a aparecer na noite do Rio de Janeiro , todos ficaram deslumbrados com a estória de uma descendente de uma nobre família de San Geminiano , na Toscana , que migrara para o Uruguai , que falava frases misturando palavras de italiano e espanhol , uma verdadeira “Xul Solar” (*) da Guanabara , proferido preciosidades como “È cambiado il tempo estas piovendo” ,”perrito bianco” , “per mucho tiempo ancora en tu vida dovrai cercare” “Mi nostalgia di rivedere es fuerte più del pianto” , “Hacia fredo en el giorno de cumpleaños “, e coisas assim …

Morando em uma kitchnette na R. Prado Júnior , The Lady From Montevideo , desprezava tudo que se referisse a pobreza e só conversava com pessoas com elevado poder aquisitivo e que falassem italiano . Tal predileção , a fazia um tanto quanto solitária , uma vez que vivia em meio a uma multidão de emboabas , cafuzos e mamelucos e ainda sob o sol escaldante do trópicos …

Uma tarde na esquina da R. Fernando Mendes com a Av. Nossa Senhora de Copacabana , The Lady from Montevideo , conheceu um milinoário italiano , muito bonito que a convidou para conhecer a sua cobertura de frente para o mar …

Na noite combinada , nossa protagonista , muito produzida , ficara deslumbrada com a decoração e o requinte do ambiente , porém enquanto abria uma preciosa garrafa de Romanee Conti , o milionário pediu que ela escolhesse uma música . Sem saber diferenciar os cantores , The Lady from Montevideo colocou um CD ao acaso … Quando a música começou a tocar , a surpresa , o choque e a perda de todas as faculdades psíquicas : a música era “Piange…il telefono” ( cantada por Domenico Modugno) , ou seja , uma canção originalmente francesa ( “Le téléphone pleure” de Claude François/Jean Pierre Bourtayre/F. Thomas ) que fora vertida para o italiano e depois para o português , se passando a chamar “O telefone chora” e que fora gravada por Márcio José . Nossa musa , no momento que achava que encontraria a felicidade , lembrando da versão tupiniquim da referida música , viu todo o seu passado pobre passar em um átimo…e o que vinha à sua consciência em conta-gotas entrou como uma enchurrada de auto-crítica…

The Lady From Montevideo foi enterrada como indigente no cemitério do Cajú …

(*) Xul Solar : artista plástico argentino , criador de três novos idiomas entre eles o neo-criollo e a pan-lengua , sendo que um destes idiomas misturava palavras do espanhol , português , inglês e francês (as quatro linguas predominantes nas três américas ) .

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mas o que duraria mais , aquilo que morria em penitência ou aquele novo recanto de reticências verdadeiras que se impunham tortas , vesgas , maiores que a fatalidade de suas freqüências se desviando tranqüilamente para um novo ponto de aniquilamento . aquele , dos entardeceres trancados . das ceias sofisticadas e sem assunto . das trepadas perfeitas e pesarosas . quem saberia lhes dizer como vencer esses estardalhaços de noções novas e repentinas . quem poderia salvá-los deles mesmos . desses seus novos cortes escondidos . como poderiam as cicatrizes desses novos sentimentos esconder-se por tanto tempo como eles mesmo desejavam . para sempre . como o desejo transparente e ingênuo dos amantes tênues . que buscam a tranqüilidade tropeçando no meio obscuro das possibilidades adversas .

( Suzana Cano )

MERCADO DA CANTAREIRA (MERCADÃO)

Este desenho de observação , foi realizado em 1982 , para uma matéria da Faculdade de Arquitertura e Urbanismo da USP . Passados dezenove anos , foi escaneado e colorido no photoshop …A intenção agora , é mostrar o sonho ( ou utopia ) de uma São Paulo melhor : NON DUCOR DUCO !!!

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Citação do dia :

“Music , when soft voices die ,

Vibrates in the memory ;

Odours, when sweet violets sicken ,

Live within the sense they quicken .

Rose leaves , when the rose is dead ,

Are heaped for belove’s bed ,

And so thy thoughts , when thou art gone ,

Love itself shall slumber on .” (*)

(*) A música , quando as vozes suaves morreram ,

Vibra na memória ;

Os perfumes , quando as violetas doces murcharam ,

Vivem no sentido que animam .

As pétalas de rosa , quando morreu a rosa ,

São amontoadas sobre a cama do amado ,

E assim , sobre teus pensamentos , quando te fores ,

O próprio amor vai cochilar .

( Percy Shelley )

Citação do dia : “La peau humaine sépare le monde en deux espaces . Côté coleurs , côté douleurs . ” (*)

(*) A pele humana separa o mundo em dois espaços . Lado cores , lado dores .

( Paul Valéry )