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{ Monthly Archives } May 2002



MESTRE PESCADOR



MESTRE CACHIMBEIRO

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Hoje cito um trecho do ensaio “O Sonho de Coleridge” do escritor argentino Jorge Luis Borges , que transcrevo enquanto ouço o tango “El Sueño del Pibe” ( Reinaldo Yiso/Juan Puey ), reparando nas coincidências entre o texto e canção : o caráter onírico e a origem platina de ambos …

O SONHO DE COLERIDGE

“O fragmento lírico Kubla Khan ( cinqüenta e tantos versos rimados e irregulares , de refinada prosódia ) foi sonhado pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge , em um dos dias do verão de 1797 . Coleridge escreve que se retirara para uma chácara nos confins de Exmoor ; uma indisposição obrigou-o a tomar um hipnótico ; foi vencido pelo sono momentos depois de ler uma pasagem de Purchas que descreve a edificação de um palácio por Kubilai Khan , o imperador cuja fama ocidental foi obra de Marco Polo . No sonho de Coleridge , o texto lido por acaso principiou a germinar e a se mutiplicar ; o homem que dormia intuiu uma série de imagens visuais e, simplesmente , de palavras que as manifestavam ; passadas algumas horas , acordou com a certeza de ter composto ou recebido , um poema de cerca de trezentos versos . Recordava-os com singular clareza e conseguiu transcrever o fragmento que perdura em suas obras . Uma visita inesperada interrompeu-o e foi-lhe impossível , depois , recordar o restante .”

( Jorge Luis Borges )

A VERDADEIRA ESTÓRIA DO TRADICIONAL AZEITE CURUPIRA

Visando escapulir do alistamento militar para a guerra de Angola , Manuel Elias , que exercia a função de gasolineiro ( palavra usada em Portugal para denominar o que aqui chamamos de frentista) no bairro do Belém , abandonou Lisboa , vindo a se estabelecer no bairro paulistano do Belenzinho ( a semelhança dos topônimos embora pareça , não foi acidental ) .

Nosso protagonista , exerceu as mais variadas funções em sua nova pátria , sem entretanto fixar-se em alguma que lhe proporcionasse satisfação . Uma tarde assistindo uma reportagem televisiva sobre um combustível derivado do dendê , desenvolvido em uma universidade do nordeste , denominado dendíesel , teve um instante de iluminação : imaginou que , se alguém desenvolveu um combustível baseado em um óleo comestível , por que ele não poderia desenvolver o inverso ; ou seja , um óleo comestível baseado em um combustível ??? Sete dias depois , ele teve um sonho bastante revelador : Um ser de baixa estatura , de pele e cabelos esverdeados e pés virados para trás , apareceu por uma fenda entre a parede de seu quarto e indicou-lhe uma arca cheia de moedas de ouro enterrada sob uma árvore que trazia uma inscrição : Mutamba !!!

Ao acordar , foi pesquisar , decobrindo que o ser que lhe havia aparecido em sonho , chamava-se Curupira … A leitura de um livro sobre botânica revelou-lhe o significado da obscura inscrição : Mutamba era um tipo de madeira . Pronto !!! Era só fazer um azeite derivado de óleo díesel envelhecido em barris de mutamba e batizá-lo com o nome da figura lendária , que ele ganharia muito dinheiro , não esquecendo de inserir no rótulo , um adjetivo que desse um tom clássico ao produto : a palavra escolhida foi “tradicional”.

Manoel Elias , anda hoje gargalhando sob uma bonita cartola , desfrutando as recentes benesses materiais … Vai vaidoso com o fato de que Tradicional Azeite Curupira será citado no próximo livro de Jeffrey Steingarten … Outro dia ( uma semana após ter intuído um revolucionário processo para a fabricação de uma bagaceira ) sonhou com uma tradicional figura da literatura de cordel chamada “O Boi Mandingueiro” …

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SENTINDO-SE JOVEM

De repente descubro que estou em idade de disputar uma copa do mundo . Pelo menos , é a conclusão que cheguei ao descobrir que David Seaman ( goleiro titular do English Team ) , Jan Heintze ( zagueiro titular do selecionado dinamarquês ) e Jacques Songo’o ( goleiro reserva da seleção de Camarões ) , são mais velhos que a pessoa que escreve estas linhas … Isto se não tiver nenhum outro jogador com idade falsificada …

Citando dois dos escritores citados em meu conto mais recente :

Muito melhor do que ler um livro é relê-lo , já afirmava Jorge Luis Borges . Pois bem , ontem , ganhei de presente uma edição fac-similada do livro : “K4 o quadrado AZUL” , de José de Almada Negreiros , impresso no mesmo solo lusitano em que nasceu o referido poeta , dramaturgo e pintor … Já havia lido-o na edição das obras completas deste artista múltiplo , que a editora Nova Aguilar heróicamente publicou nas terras de Pindorama ( aliás , quando estive em Lisboa em 1998 , verifiquei que não havia sido editado lá , algo semelhante ) . Agora releio-o … aqui vai um fragmento com a grafia original :

“Succediam-se juxtapostos hieoglyphos syntheticos de expressão immediata e que apesar de não estarem gravados em nehuma das faces do quadrado azul reproduziam-se nitidos em golpes de Radium pra dentro do meu cérebro impresso a helzevíre. De entre muitas das frases resolvidas archivava-se em profundidade estragnada a maldição da humanidade condenada ao prolongamento indefinidamente-desespero da noção do instante. Outras documentações inexplicaveis de mim prós outros estavam sublinhadas de zêbras aflitas d’imprescindivel importancia. Mas umas das que mais mordeu a minha sensibilidade foi a Medicina das côres pla qual tudo seria exito se se resolvêssem as proporções de um quadrado relativamente á aflição do Mysterio. Como exemplo intensificava a energia epilética de uma espiral de caixa de surprêzas relativamente ao perigo perpendicular de um quadrado de azêbre circumscrito ao circulo diámetro da terra e definindo a superficie exgotada quotidianamente em razão subjectiva.”

( José de Almada Negreiros )

UM MAIS UM IGUAL A UM

Jessica Camila era uma daquela mulheres que , como Machado de Assis definia : “deixava às outras o trabalho de envelhecer . Só queria o de existir” (1) . Elegantemente linda e misteriosamente refinada , vivia a lecionar história da arte em uma famosa faculdade de arquitetura na metrópole paulistana . Amante das inúmeras atividades culturais que sua cidade oferece , vivia a aconselhar seus educandos , dando dicas de exposições , filmes , shows , peças tetrais , etc … Porém , vivia frustrada … a indiferença pedante da atual geração a deixava consternada … perguntava por exemplo : -“Alguém foi na retrospectiva de John Huston que se encerrou no final de semana passado ?” … a classe respondia com um silêncio boçalmente bocejante . Porém no intervalo , no refeitório , ela reparou que os jovens discutiam animadamente sobre o que ocorria nos reality shows , nas novelas e em outras tantas coisas que nossa ilustre mocidade elege como de vital importância para a conversação diária .

Uma tarde em que mostrava um slide com o último quadro de Van Gogh ( aquele com uma estrada em meio a um campo de trigo amarelado , sob um céu azul , no qual uma revoada de corvos acrescentava um caráter tempestuoso à composição ) , ouviu uma mocinha comentar sorridente : -“Estas pinceladas amarelas me lembram as batatas fritas do Mc Donald’s !!!” Gargalhadas gerais …

A nossa protagonista se retirou imediatamente do recinto , para nunca mais retornar àquele meio em que as pessoas se orgulham da ignorância …

Horas depois , em uma livraria , presenciou uma cena revoltante : um jovem , com roupas puídas , tentara sem sucesso adquirir em dez prestações , o primeiro volume das obras completas de Jorge Luis Borges … o vendedor respondeu secamente : -“Só vendemos à vista .” Ao observar o rapaz deixar a loja cabisbaixo , Jessica não titubeou , arrematou não só aquele tomo , mas os quatro volumes , e correndo alcançou-o na calçada dizendo : -“Olha , são para você , você merece !!!” … E assim começou um romance duradouro …

Já se passaram alguns anos …atualmente ela leciona na escola municipal “Dolores Duran” localizada na R. Dom Rodrigo Sanches , em um pedaço do Capão Redondo que alguns teimam em denominar Jardim das Rosas , enquanto outros chamam de Parque do Engenho … A nossa professorinha , feliz com o interesse da população de baixa renda , ensina que quando duas pessoas se amam , o resultado é a unidade : ou seja , um mais um igual a um !!! Esta teoria , elaborada pelo pintor e poeta Almada Negreiros , em sua peça teatral “Deseja-se Mulher”de 1928 , está sendo muito bem recebida pela juventude carente …

Enquanto isso sua cara-metade , agora um renomado crítico literário , garante o sustento financeiro necessário para que o casal possa freqüentar bons restaurantes e desfrutar o circuito cultural sossegadamente .

(1) do conto “Senhora” , contido no volume intitualado “Histórias Sem Data”.

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Recebi um e-mail de um índivíduo que , não querendo ser identificado ( por razões que não vem ao caso salientar ) comenta o conto SEREIA VESGA DO MAR DO ENGÔDO , publicado neste blog no dia 30 de Abril . Primeiramente , o leitor corrige uma informação sobre a música “Frente al Mar” de autoria de Mariano Mores e Rodolfo Taboada , afirmando que se trata de um tango e não um bolero , como foi publicado … Aqui vão minhas desculpas … na verdade , a versão que eu conhecia é a gravada pelo Trio Cristal em ritmo de bolero … porém na versão original a música supracitada veio no famoso ritmo platino … aliás pesquisando descobri que Mariano Mores compôs uma série de tangos famosos como ‘La Cumparsita” , “Uno” , “Adiós Pampa Mia” , “Cafetin de Buenos Aires” , etc …

Na outra parte da mensagem , o colaborador desconhecido contou coisas interessantes : ele conheceu pessoalmente o autor do poema mencionado , o Prof. Paulo Gomide . Além de contar algumas estórias divertidas sobre o ilustre personagem , mandou um artigo, publicado na Tribuna de Petrópolis em 13/06/1982 , uma foto ( que adidionei cores para dar um pouco de plasticidade ) e o famoso cartão no qual o citado místico e poeta anunciava suas aulas de bússola mental ( aliás é com imenso orgulho que este blog publica cópias desta raridade ) . Aqui vai um trecho do referido artigo no qual são demonstradas as 7 “origens”de todas as filosofias :

“1. A PINÇA DIGITAL

É A TRINDADE BASE SOBRE A QUAL & SOB A QUAL VEMO, EGO, SUPEREGO & IDEAL.

2. O INSTINTO É: TEM DIREÇÃO; SERVE A ESPÉCIE; RÍTMICO; DESENVOLVE-SE; INATO; É DE CONSERVAÇÃO; É SOBERANO.

3. OS DONS DO ESPÍRITO SÃO: SABEDORIA; ENTENDIMENTO; CONSELHO; FORTALEZA; CIÊNCIA; PIEDADE & TEMOR A DEUS; AÍ ESTÁ A TRINDADE BASE-ORIGEM. (Isaías II-2).

4. 3 CONDIÇÕES DO DIÁLOGO; 1. MESMO TEMPO; 2. MESMO NÍVEL; 3. MESMO INTERESSE OU PAIXÃO; 4 PLANOS DO DIÁLOGO: 1. ONÍRICO; 2. GENITAL; 3. AMISTOSO; 4. CÓSMICO. (7 ORIGENS).

5. DIALOGAÇÕES; BRAHMA (SOL); 2: BUDA (HOMEM); 3: LAO-TSÉ (CULTO DA PALAVRA); 4: ZARA TRUSTA (ORIGENS); 5: OZÍRIS (TEMPO) (PIRMIDE GUIZÉ); 6: MOISÉS (LEI DE DEUS); 7: CRISTO JESUS (DIÁLOGO, EM PLANO CÓSMICO, PALAVRA DE DEUS. NOTAR AS EVOLUÇÕES DO DIÁLOGO, ATÉ CHEGAR A ÉPOCA ATUAL: RELÓGIO).

6. DIA.LOGOS (SNSCRITO) PALAVRAS DE DEUS A MOISÉS:

1: AMAR; 2: NOME EM VÃO; 3: DOMINGOS & FESTAS; 4: PAIS MÃE; 5: NÃO MATAR; 6: CASTIDADE; 7: NÃO FURTAR; 8:NÃO LEVANTAR FALSO TESTEMUNHO; 9: MULHER DO PRÓXIMO; 10: NÃO DESEJAR COISAS ALHEIAS. (8,9&10 – PERSONALIDADE; TEMPERAMENTO; CARÁTER). (VIVER E DIALOGAR).

7. O “DECÁLOGO MARIANO“EXPLICA O DECÁLOGO MOSAICO:

1: ATENTO CONVIVER; 2: SAÚDE; 3: LIBERDADE; 4: MEMÓRIA; 5: INTELIGÊNCIA; 6: COMPANHEIRISMO; 7: SONHAR; 8: CRIAR; 9: IMPROVISAR; 10: BASTAR-SE.

( Paulo Gomide , 24 de maio de 1982 )

Citação do dia :

“O POETA CONSERTA A ETERNIDADE

ALMOÇA JANTA DORME

E COME

COMO UM MORTAL DE VERDADE”

( Lúcia Santos )

FLORES , DORES & ODORES

Em uma tarde gris , Orlando Dorvalino dirigiu-se ao edifício Corrientes para receber uma soma em dinheiro por serviços prestados na manutenção dos elevadores . Recebida a quantia no apartamento do zelador , que ficava na cobertura , entrou o ascensor encontrando dentro deste , um carrinho de supermercado no qual havia um vaso com uma flor extremamente perfumada . No terceiro andar , o elevador parou para que uma belíssima dama adentrasse . Embaraçado com a situação nosso protagonista ofereceu o vaso para a mulher …esta sorrindo agradeceu , dizendo que se chamava madame Ivone e que morava no apartemento 348 , e que ele poderia aparecer lá quando quisesse .

Ele voltou , uma , duas , várias vezes …e assim começou um romance , no qual ela vivia contando sobre seu passado no qual driblara a pobreza em uma casa de pensão , dizendo que a presença dele , tão bacana , havia posto calor em seu ninho … Orlando Dorvalino comovido , convidou-a para morar com ele , e não desconfiou quando ela veio apenas com poucas peças de roupa , um gato de porcelana e um abajur lilás …

Em uma triste noite de Reis , ela o abandonou levando todo o seu dinheiro … nosso amigo deseperado foi ao edifício Corrientes , para ver se o zelador sabia algo a respeito da beldade fugidia , sendo informado pelos outros moradores que o ilustre funcionário também se evadira na mesma data …humilhado em sua tristeza , ele subiu até a cobertura e derrubou a porta do apartamento a pontapés … lá dentro , um ambiente vazio com apenas um canteiro com flores com um cheiro muitíssimo semelhante a aquela do elevador …

Hoje Orlando Dorvalino passa o tempo a beber gin a meia-luz para perfumar seu crepúsculo interior …

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Citação do dia : “Sim , o trabalho é o melhor entorpecente quando se faz dele um fim em si . ‘É o meu vício , confessou-me na Praia Grande um pintor de parede que fôra oficial do Exército iugoslavo . Mas cumpre regá-lo com um traço de pinga de quando em quando , senão embrutece por demais’, acrescentava . Dos desajustados que conheci êsse era o mais digno . Tinha alguma leitura e gostava de citações . ‘In vino veritas , observava , e a busca da verdade sempre me apaixonou .’ – ‘Mas só bebe cachaça , atalhei , será que com ele o ditado também funciona ?’ – ‘Sem dúvida , notch etwas bleibet’ ( … ) Os desajustados mansos são muitas vezes deliciosos companheiros para um papo de meia hora . Um tio meu que passara uma temporada num hospício, dizia-me : ‘quando você ficar louco , finja mesmo de louco , quando não se finge , êles mandam a gente descascar batatas’ . Infelizmente não soube aplicar essa teoria de trapaça eficiente na vida prática . Morreu pobre e descascando batatas .”

( Sérgio Milliet )

Obs. : Mantive a acentuação original deste fragmento do livro De ontem , de Hoje , de Sempre, .