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{ Monthly Archives } abril 2004

Citação do dia :

“Um livro existe que contém todos os livros , todos os pensamentos possíveis de serem expressos. Um livro apenas: o Vocabulário Ortográfico. (Só falta, é claro, escolher as palavras e colocá-las na ordem correta.)”

( Eno Teodoro Wanke)

PARLAÇÕES PASCOAIS

Citação do dia :

“Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas coisas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?

Constituição íntima das coisas “…

“Sentido íntimo do Universo” …

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em coisas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina).

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.”

( Alberto Caeiro Рheter̫nimo de Fernando Pessoa )

O ANJO TOSCO

Acabo de ler “Canhoteiro – O homem que driblou a glória” escrito por Renato Pompeu . O livro não se resume na biografia do futebolista ( apelidado de “O Mágico” , “Mandrake” , “O Cantiflas” , etc. ) que em uma só jogada driblou seu marcador ( Idário , do alvi-negro de Parque São Jorge ) 14 vezes , ou que como dizia o jornalista Sérgio Baklanos :

“…após tomar o café, dava um golpe no pires e a xicrinha voava pelos ares, aninhando-se num pé do atleta. Ele ficava passando a xicrinha de pé para pé até que, na última embaixada, a lançava de volta para cima do pires na mão de Canhoteiro, de pé e exatamente por sobre o círculo de descanso esculpido no pires.” ( página 102 ).

Enriquecendo o relato da carreira do ponta-esquerda são-paulino , que ganhou apenas um título ( o de Campeão Paulista de 1957 ) , Renato Pompeu descreve o processo de mudança no meio de transporte coletivo da paulicéia ( que do bonde passa para o ônibus ) ; o isolamento que a cidade enfrentava em relação ao resto do país ( os seus jogadores de futebol e seus cantores de rádio só faziam sucesso na capital , pois até o interior do estado só ouvia as rádios cariocas ) ; o comportamento social da época ; as inovações táticas do futebol , etc ; para finalmente fazer um belo paralelo entre o craque que “não cumpriu o sonho de ser campeão mundial” ( Canhoteiro fez pouco caso da seleção e permitiu que Zagalo tomasse o seu lugar e se sagrasse campeão do mundo na Copa de 1958 ) com São Paulo que “não cumpriu o sonho de inserir o Brasil no Primeiro Mundo” …

Se era assim há quarenta anos, imagine hoje , quando os dois times que disputarão a final do campeonato paulista não são da capital ( um é de Jundiaí e o outro é de São Caetano ) …

Para finalizar uma outra homenagem a Canhoteiro , a canção que abre o disco de Fagner e Zeca Baleiro :

“CANHOTEIRO

Um anjo torto

Um canhoteiro

Um São José de Ribamar

Um bailarino

Um brasileiro

Um Paraíba

Um Ceará

Um pé de ouro

Um peladeiro

Mata no peito e beija o sol

Balão de couro

Bola de efeito

Mas que perfeito é o futebol

Corre dispara pára ginga e zás

(Corre dispara pára ginga e jazz)

Mais um zagueiro vai pro chão

Esse já era não levanta mais

Outros virão

Finta canhota voa samurai

Lá vai a bola bala de canhão

Seu pé direito é a bomba que distrai

O esquerdo é o coração

Um belo drible

Decide o jogo

No grande baile do futebol

Só um artista

Um canhoteiro

Acende a tarde inventa o sol”

( Fagner/Zeca Baleiro/Fausto Nilo/Celso Borges )

“A vida não tem significado , é uma história , cheia de som e de fúria , contada por um louco.”

( Shakespeare )

QUEM FOI , FOI …

Houve na choperia do Sesc Pompéia durante três dias , um evento denominado CATARSE … só compareci no sábado ( se soubesse que seria tão bom , iria todos os dias … ) Por lá rolou : Canto de Cozinha , Paulo Padilha , Show dos Texugos , Sérgio Molina , Histórias do Sr. K por Marcos Ferreira , Moisés Santana , Ceumar , Cláudia D , Miriam Maria , Projeto Cru , Sidão , Laura Finocchiaro , Makumbacyber e Ecodesfile …

Pessoas bonitas dançavam em ambiente descontraído , lembrando o antigo “Fábrica do Som” ( que era gravado no teatro ao lado ) : cantos de cadomblé , releituras de Sidney Magal , Camisa de Vênus , Renato e Seus Blue Caps , música experimental , sons percurssivos , pintura ao vivo , etc …

Além de ter encontrado o Paulo Padilha ( que vejo com alguma freqüência ) reencontrei Sérgio Molina ( que me substituiu como guitarrista no lendário conjunto “Dentro do Piano” ) e sua esposa Miriam Maria ( que foi minha contemporânea na faculdade ) … na saída comprei os CDs deles : ouçam !!!

Ontem teve o tradicional encontro de artistas na residência de um polêmico trio : o designer Javé Nardini , a sua esposa Giedre e seu filho Chiquinho … apareceram lá os artistas : Carlos Rezende , Fábio Casarini , Flávio P.T. de Carvalho , Ricardo Woo e eu .

Conversas e conversas sobre pintura … cerveja e grappa … as cerâmicas da anfitriã em profusão … o projeto de tapete do anfitrião …

Hoje fui conferir o painel de Sol LeWitt que Resende e Woo executam juntamente com outros artistas na residência de um famoso magnata …

Não é este da foto , mas é tão criativo quanto …

Veja um pouco mais aqui.