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CONSIDERAÇÕES DE UM ESCRITOR

Zelino Zamparini estava nervoso na manhã do lançamento de seu livro “Lágrimas Gargalhantes”… tomou banho fez a barba e vestiu uma roupa simples, colocou a bagagem sua e de sua mulher no carro, duas mochilas e um cabide com seu melhor paletó e o melhor vestido de sua cara-metade limpos e passados… fechou bem a casa e pé na estrada… de Echaporã até São Paulo são quase quinhentos quilômetros… por isto resolveram sair cedo, tomar o café da manhã no caminho e chegar na capital paulista na hora do almoço, se desse tempo iriam comer no Itamaraty…

– “Será que ainda está aberto? Vários lugares clássicos já haviam fechado, o Riviera, o Parreirinha, e dizem até que a rotisserie Bologna havia fechado”…

Definitivamente São Paulo já não era mais a mesma do tempo em que eles moravam… na verdade nenhum lugar nunca é… aquele velho papo que Heráclito contava sobre ninguém poder banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois as águas já não eram mais as mesmas…

No caminho foram ouvindo músicas country tocadas por roqueiros do final dos anos sessenta e início dos setenta: Sweetheart Of The Rodeo (Byrds), Beggar´s Banquet e Let It Bleed (The Rolling Stones), “The High Lonesome Sound of The Flying Burrito Brothers” e muitas outras enquanto seu carro deslizava entre os canaviais ensolarados…

Após certos transtornos para adentrar a cidade, o nosso protagonista e sua esposa Pietra deixaram o carro em um estacionamento ao lado do hotel…

– ”Agora chega de dirigir… vamos pegar o metrô até a São Bento, lá fora veremos de novo o mural pintado pelo Maurício Nogueira Lima depois iremos dar uma rezadinha no Mosteiro de São Bento, depois Itamaraty, será que ainda tem aquele arroz-de-polvo? combina com vinho verde…”

Após fazerem o planejado e tirarem um merecido cochilo Zelino e Pietra Zamparini tomaram outro banho e vestiram suas melhores roupas… na rua tomaram um café expresso e foram direto para a livraria…. ele estava curioso pois havia visto a capa de “Lágrimas Gargalhantes” somente via internet e agora iria vê-la impressa de verdade…

– “Ficou bom!!!”

“Lágrimas Gargalhantes” era definitivamente o melhor livro do ano: era um romance passado em Cluj-Napoca (Romênia) sobre uma adolescente orfã chamada Ionela, que apesar de magrinha, branquela e com orelhas de abano possuia lindos olhos lilases e cuja única alegria era o cachorro chamado Vlavlash… porém um dia, o cãozinho cai em um bueiro e é devorado por ratazanas famintas… a partir daí ocorre uma sucessão de desgraças, até que Ionela encontra um antigo saco-de-risadas em uma lata de lixo, então de posse do seu brinquedinho o mundo passa a ter um outro significado e começam a ocorrer uma série de coisas boas…. porém um dia o saco-de-risadas cai no rio Someşul Mic e então a menina decide deixar a Romênia e ir para Piriápolis no Uruguai, onde vivia sua tia Raluca…

O lançamento foi um sucesso de público e crítica, surgiu até um convite para a próxima Flip em Paraty… o nosso protagonista aproveitou também para encontrar familiares e amigos indo comemorar depois no Le Casserole no Largo do Arouche…

No dia seguinte antes de retornar decidiram dar uma passada em um shopping center para comprar um brinquedo para seu sobrinho, e ao adentrar a loja de brinquedos não acreditaram no que viram:
Uma senhora com uma bolsa de couro contendo uma garrafa térmica e uma cuia de mate, segurava pela mão uma adolescente magrinha, branquela e com orelhas de abano e lindos olhos lilases que por sua vez examinava um saco-de-risadas na prateleira da loja… Não era um saco-de-risadas laranja como aqueles dos anos setenta, era colorido e moderninho…

Pietra então olhou perplexa para o seu marido e disse:

– Não acredito!!! Elas não podem ser reais!!! Elas são personagens do seu livro!!!

Zelino Zamparini sorriu vagarosamente… ficou alguns instantes em silêncio e exclamou:

– Ora querida, todos nós fomos, somos ou seremos personagens de algum romance, conto ou novela… essas duas com certeza são as personagens do meu livro, mas nós dois por exemplo podemos ser personagens de um pequeno romance de um artista desconhecido ou até mesmo de um mini-conto publicados em uma destas boas revistas eletrônicas que estão surgindo…

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