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Brilhante , seria um adjetivo que poderia designar o CD de Raimundo Fagner e Zeca Baleiro … Um disco que começa com uma gravação de um gol do querido tricolor do Morumbi , sempre deve ser bom !!! Pois é … isso mesmo : a primeira coisa que ouvimos é uma gravação de um tento , assinalado por Canhoteiro ( campeão paulista em 1957 pelo São Paulo F. C. ) na introdução de “Canhoteiro” ( Fagner/Zeca Baleiro/Fausto Nilo/Celso Borges ).

Pois bem , a parceria ( que pode parecer inusitada , a primeira vista ) se revela consistente nesta obra que mistura blues , música brega ( “Cantor de Bolero” dedicada a Waldik Soriano , Fernando Mendes , Odair José , Carlos Alberto , Nilton César , Bartô Galeno , Reginaldo Rossi , entre outros ) , cancão francesa do século XVI ( “Três Irmãos” ) , e música nordestina , sem no entanto usar dos clichês desta , mais ou menos como no filme “Amarelo Manga” de Cláudio Assis , que mostra o Nordeste em seu âmago ( é o primeiro filme que assinala a imobilidade zen dos cidadões do nordeste ) em vez de mostrar clichês de novela da globo …

Ouvindo os arranjos , nota-se a roupagem dos dois ultimos CDs de Zeca Baleiro ( com a cristalina guitarra folk de Tuco Marcondes ) permeada de toques Fagnerianos , como as harmonias do violão de doze cordas de Manassés … em termos vocais tem-se a impressão que a sobriedade vocal do cantor do Maranhão contagiou benéficamente o modo de cantar do cantor do Ceará : Fagner interpreta como nos dois primeiros discos ( “Mucuripe” e “Ave Noturna” ) evitando os malabarismos vocais um tanto exagerados que prejudicavam sua musicalidade .

No que tange às letras , uma terceira parceria ( Fausto Nilo ) , garante profundeza estética e conteúdo poético ao disco , embora Fagner e Zeca , sozinhos também conseguem dar conta do recado como na genial “Hotel à beira Mar” ( Fagner/Zeca Baleiro )

Há ainda a colaboração de Brandão , Sérgio Natureza , Celso Borges e Torquato Neto …

No primeira verso do CD ( Um anjo torto / um canhoteiro / um São José de Ribamar / um bailarino / um brasileiro / um paraíba / um ceará” ) já notemos uma citação a uma letra ( “Let’s Play That” ) em que o poeta piauense também citava o poema das Sete Faces de um certo poeta mineiro …

Na décima canção , vem uma letra inédita de Torquato , que em uma primeira leitura , pode parecer coisa de bicho-grilo que fica falando de disco voador , porém para quem já leu Schopenhauer ou textos de religiões orientais ( Bhagavad-Gita , Vedas , etc. ) perceberá uma metáfora do processo de iluminação e do abandono da roda-de-Samsara , do processo das encarnações , do dia insuportável que se sucede a outro dia insuportável , como diz a personagem dona-de-boteco do supra-citado filme pernambucano …

Eis a letra do poeta de Teresina :

DAQUI PRA LÁ DE LÁ PRA CÁ

Era um pacato cidadão sem documento

não tinha nome profissão não tinha tempo

mas certo dia deu-se um caso

e ele embarcou num disco

e foi levado pra bem longe

do asterisco que vivemos

Ele partiu e não voltou

e não voltou porque não quis

Quero dizer ficou por lá

já que por lá se é mais feliz

E um espaçograma ele enviou

pra quem quisesse compreender

mas ninguém nunca decifrou

O que ele nos mandou dizer

РTerra mar e ar aten̤̣o

O futuro é hoje e cabe na palma da mão

Para azar de quem não sabe e não crê

que se pode sempre a sorte escolher

e enterrar qualquer estrela no chão

Viet vista visão viet vista visão

РTerra mar e ar aten̤̣o

Fica a morte por medida

Fica a vida por prisão

( Poesia de Torquato Neto , musicada por Fagner e Zeca Baleiro )

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