Skip to content

{ Tag Archives } mini-contos

PÁSCOA EM VENEZA

Josias Germano e Marília Olávia estavam novamente em Veneza, chegaram cansados pois a sexta-feira santa em Sevilha fora intensa… as ruas tomadas de fiéis em procissões, o calor latejante… uma coisa que eles sempre julgaram um mistério: apesar da Itália ser o centro do catolicismo, o local do planeta em que a semana-santa era celebrada com maior devoção era a Andaluzia… O plano inicial seria passar o domingo lá mesmo naquela cidade a beira do Guadalquivir, mas por algumas contingências que não cabe aqui explicar, eles resolveram celebrar a páscoa em Veneza…

No sábado de aleluia, fizeram uma bússola mental para o dia seguinte: assistiriam a missa pascal na Igreja da Madonna dell’ Orto, depois rumariam para aquela pequena loja de vinhos perto do Canale Cannaregio, onde estiveram na última vez que visitaram aquela cidade; tomariam umas taças de aperitivo, para depois almoçar na Trattoria da Gigio.

Ao adentrar a igreja, Josias Germano reparou nos afrescos de Tintoretto: de uma lado um episódio do velho testamento: A Adoração do Bezerro de Ouro… do outro lado um episódio de novo: O Juízo Final… Ao avistar este, o nosso protagonista, não sabemos por qual motivo, se lembrou da pintura “Los Borrachones” que Geoffrey Firmin vislumbra na casa de Jacques Laruelle no sétimo capítulo do livro “A Sombra do Vulcão” de Malcom Lowry… depois voltou a observar o outro afresco e se lembrou das notícias sobre a corrupção vindas de sua Pindorama natal… então a missa começou…

Saindo da igreja rumaram para a pequena loja de vinhos no Canale Cannaregio… a fachada permanecia a mesma: toldo e batentes turquesa e entre a porta e janela, um barril alongado com vasos de flores em cima… lá dentro o mesmo senhor simpático em meio aqueles garrafões vinhos locais (Bengentile, Maestro, Malorosso, Rulacuori, etc) vendidos em garrafas pet a preços irrisórios… mas o melhor não era o preço dos vinhos e sim conversar com os frequentadores locais…

Naquele domingo enquanto saboreavam um Rosso di Laguna, reparam em uma casal de velhinhos: ele vestindo um paletó de tweed marrom, camisa azul clara e calça bege, boina de lã (provavelmente irlandesa),…ela de trench coat, calça cinza, e lenço de seda no pescoço… os senhores também simpatizaram com nossos protagonistas e após notarem que os dois conversavam entre si em português, puxaram conversa em espanhol e começaram a contar a vida deles…

Ele se chamava Juan Carlos Laurelli nascera em Guernavaca, no México, filho de um pintor e anarquista toscano, que como Trotsky e tantos refugiados políticos do velho continente, rumaram para aquele país sob a proteção do então presidente Lázaro Cárdenas. Lá encontrou uma conterrânea, nascida na região do Vêneto, que fora para aquele país estudar fotografia com Tina Modotti, quando esta estabeleceu seu estúdio fotográfico na Cidade do México. Desde pequeno ele ficara encantado pelo cinema e já na pré-adolescência perambulava pelos estúdios de cinema mexicanos, conseguindo uma ponta no filme “Los Olvidados” de Luis Buñuel onde fez uma breve aparição no papel de menino de rua. O cineasta aragonês simpatizou com o jovem e este passou a desempenhar o papel de faz-tudo nas produções mexicanas de Bunûel. Quando este retornou à Espanha para filmar Viridiana, Juan Carlos foi junto, porém ele não se adaptou a Espanha de Franco e logo rumou para a terra de seus pais, mais especificamente para a Cinecittá.

Ela se chamava Antonella Adobrandini e nascera em Bellagio, a beira do Lago de Como e pertencia a uma antiga família aristocrática, e após tentar algumas vezes o desenho de modas em Milão, resolveu trabalhar como figurinista com um amigo da família: Luchino Visconti… nos estúdios da Cinecittá conheceu Juan Carlos… logo se apaixonaram e foram viver em Castellammare di Stabia, na beira do Vesúvio… agora iriam passar o resto de suas vidas em Veneza.

Os nossos protagonistas também contaram a história de suas vidas, e falaram também sobre aquelas férias: Lisboa e o Tejo, Sevilha e o Gadalquivir e agora Veneza e Gran Canalle… contaram também sobre a missa que tinham acabado de assistir na Igreja da Madonna dell’ Orto. Josias Germano intimidado com a bagagem intelectual de Juan Carlos resolveu comentar a analogia que percebera há pouco entre o afresco de Tintorretto e a pintura descrita no livro “A Sombra do Vulcão”… achou que poderia causar certa impressão com este comentário, pois Juan Carlos com certeza deveria conhecer o livro (que se passa em sua cidade natal) e que ganhou uma bela versão cinematográfica nas mãos de John Huston…

Ao ouvir o comentário de nosso protagonista, os olhos de Juan Carlos se iluminaram, Josias Germano percebeu que até então aquele senhor os julgara como mais um casal de turistas simpáticos, mas agora ele percebera que aquele era uma casal diferente, então se encorajou e perguntou:

– O senhor já leu este livro?

– Sim… Este livro é muito profundo, poucos percebem o seu significado. Este livro, como outros está impregnado de elementos da doutrina da Cabala…

– O que é esta coisa de Cabala? – Perguntou Marília Olávia.

– Estudando a doutrina, vocês entenderão que a visão dualista, do tipo o bem contra o mal, é uma coisa ultrapassada… na verdade existem duas forças, o positivo e o negatino, jachin e boaz ou o yang e o yin (na concepção oriental), e entre elas o caminho do meio… seguindo este caminho através do equilíbrio estamos nos aproximando do que se constuma chamar de “bem”, enquanto que toda vez que nos posicionamos dos estremos de qualquer um destes lados estamos nos aproximando do “mal”, seja do “mal positivo” onde tudo pode (luxúria, alcoolismo, corrupção,etc) seja do “mal negativo” onde nada pode (repressão sexual, abstinência, intolerância, etc.)… Este é o real significado de Jesus crucificado entre os dois ladrões: a redenção é o caminho do meio, o caminho do Tao… e quando uma pessoa, empresa ou país fica muito tempo em um extremo, logo salta para o outro extremo em um movimento pendular… veja o país de vocês: depois de anos de corrupção agora é a vez da justiça implacável!!!

– A conversa está muito interessante mas precisamos almoçar… – disse Antonella , que até então estivera praticamente calada.

– Nós também… estamos indo na Trattoria da Gigio., que fica aqui perto – respondeu Marília Olávia -Se voçes quiserem nos acompanhar são nossos convidados…

Então Juan Carlos olhou para sua esposa e disse:

– Nos encontramos lá, mas antes precisamos passar em nossa casa para buscar uma coisa. Mas não se preocupem, nós moramos aqui pertino e logo nos encontraremos…

(….)

No final do almoço, antes do café, quando estavam tomando uma grappa digestiva, Juan Carlos disse:

– Sabe, Josias… vou confessar uma coisa que não comento com quase ninguém… meu pai conheceu Malcom Lowry… e o personagem Jacques Laruelle foi inspirado no meu pai Giancarlo Laurelli, por isto que não gosto da versão cinematográfica do Huston, em que este personagem foi suprimido… mas o que eu queria dizer é que o quadro descrito no livro que você comentou, na verdade existiu.. e foi pintado pelo meu pai… eu me lembro dele vagamente… não sei se ainda existe… provavelmente não… meu pai o deu de presente ao Lowry, que em troca presenteou meu pai com este livro… onde eu aprendi o pouco que sei sobre a Cabala… agora este livro é seu… não discuta… estamos muito velhos… até agora não encontrei algém que fosse digno deste livro… fique com ele…

Juan Carlos retirou um embrulho da bolsa de sua mulher e colocando nas mãos de Josias Germano, finalizou:

– Não abra agora.

Depois se despediram trocando e-mails, whatsapps e demais contatos eletrônicos…

Ao chegar no apartamento alugado, a primeira coisa que Josias Germano fez foi rargar aquele embrulho e examinar o livro, quando então se deparou com uma edição original do livro “The Holy Kabbalah”, escrito por Arthur Edward Waite com a seguinte dedicatória: (aqui vai traduzido)

“Giancarlo Laurelli, em retribuição ao quadro, aqui vai um livro… espero que te sirva.

Malcom Lowry”

Josias Germano percebeu então que o contratempo que os obrigou a ir celebrar a Páscoa em Veneza tinha um motivo do destino…

Also tagged

bellagio

FIM DE TARDE EM BELLAGIO

Josias Germano e Marília Olávia saíram satisfeitos daquele restaurante em San Giovanni perto de Bellagio no norte da Itália… afinal o primo piatto de ambos foi um “Riso com Filetto di Persico” enquanto que o secondo piatto foi “Agoni al Burro e Salvia” para ela e “Agoni Grigliati” para ele… isto é, pratos com peixes típicos do Lago de Como, regados com jarras de vinho branco da casa… de sobremesa Sorbetto al Limone…

Resolveram não passar pelo centro de Bellagio, cheio de turistas e lojas… preferiram caminhar pela orla e depois cortar caminho até o apartamento que haviam alugado na aldeia de Visgnola, em um local afastado no alto do istmo, onde poderiam contemplar o Lago de Como durante o crepúsculo…

Era domingo, alguns moradores faziam piquenique nos poucos locais em que era permitido tomar banho de lago, enquanto que um ou outro proprietário daquelas mansões levemente decadentes presentes na região, passeavam com seus jaguares e ferraris pelas estradinhas locais…

Ao reparar em um Bentley azul-claro que passou rente a eles, Josias comentou com sua fiel escudeira sobre o choque cultural que iria ocorrer quando os refugiados do norte da África chegassem naquele pedaço da Itália onde os astros de Hollywood tinham suas casas de veraneio… por enquanto ainda não haviam avistado nenhum, mas era uma questão de tempo…

Quando estavam perto do apartamento, os nossos protagonistas observaram que em um posto de gasolina que não estava funcionando, havia um vendedor ambulante conversando com um casal de turistas… resolveram comprar camisetas e meias de lã e se aproximaram… Enquanto Marília Olávia observava os produtos expostos, Josias Germano ouvia a animada conversa entre o ambulante e o casal de turistas…

O vendedor, embora humildemente trajado, tinha uma certa elegância e sua aparência magrebina contrastava com o alemão praticamente sem sotaque com que conversava com os turistas… Sua história era peculiar… seu avô, descendente do príncipe Ludwig Von Larghenburg, fora oficial do exércio alemão, mais precisamente do Afrika Korps tendo servido sob o comando de Rommel. Ele se chamara Hans Von Larghenburg, e fora major da Aufklärungs-Abteilung 33 (*), nunca simpatizara com o nazismo, mas como sua família sempre estivera ligada ao exército prussiano, não fugira da luta, inclusive havia sido condecorado com a Ritterkreuz (**) na campanha da França… mas no meio da campanha da Africa já estava desiludido, nem tanto devido ao desenrolar da guerra (embora já previsse a catástrofe alemã), mas o que afligia-o mesmo eram as notícias do que estava acontecendo no leste europeu… No meio da batalha de Alam Halfa, em meio a nuvens de poeira e explosões, embrenhou-se com seu tanque no deserto adentro… e desertou… passando a se chamar … Hassan Fhaan L’ Ahag in-Bour

Ele, mais de meio século depois viria fazer o caminho inverso ao de seu avô… Major do exército de Bashar-al Assad também desertara e antes do início do conflito da Síria fugira para outro continente, exercendo a profissão de camelô em Palermo, Roma, San Geminiano e Bellagio… sempre seguindo para norte, até chegar na Alemanha… Quando chegasse lá, iria reinvidicar o passaporte alemão e iria mudar o nome de Hamid Fhaan L’ Ahag in-Bour para HermmanVon Larghenburg

Marília Olávia disse:

Não gostei de nenhuma meia, estava procurando uma meia de lã grossa estilo alpinista, mas não tem… vamos embora? Estou um pouco cansada… O que é que este camelô está contando de tão interessante? (***)

É uma estória muito complicada, depois eu te conto…

Iam se afastando, quando o camelô gritou (em um português quase sem sotaque):

Calças, calcinhas e calcetas!!! Bolsas, Bolsinhas e Calçados!!!

O nosso protagonista não acreditou no que estava ouvindo… fazia mais de trinta nos que ele não ouvia aquele jargão típico com seu trocadilho boçal… tão comum no centro de São Paulo no final dos anos setenta…. virou-se então para o camelô e disse:

Onde você aprendeu a falar português?

Foi com o meu pai… mas se você achou a estória minha e do meu avô complicada, imagine quando ouvir a do meu pai que morou no Brasil, um pouco antes de eu nascer… ele foi camelô no centro de São Paulo, vocês são de lá?

Sim… Somos de lá…gostaríamos muito de ouvir a estória do seu pai… mas estamos cansados… precisamos descansar…

Então descansem e depois venham jantar lá em casa… disse apontando um casebre de pedras no topo da montanha… Se vocês quiserem enquanto conto a estória do meu pai para vocês, minha esposa pode preparar um ensopado Mulunkhie com carne de cordeiro… é só vocês levarem duas garrafas de vinho… seria muito bom… faz tempo que eu não falo português…

Josias Germano olhou para sua cara-metade e em menos de um segundo compreendeu que ela iria adorar aquele jantar… Já haviam lido sobre aquele prato com folhas da planta chamada mulunkhie , mas nunca haviam provado, face o fato da matéria prima ser indisponível na América do Sul… seria muito difícil terem outra oportunidade coma aquela para degustar tal iguaria… então disse:

– Combinado… vamos levar um Amarone e uma Francicorta (****), tá bom???

PS. : Anos depois eles iriam elencar aquele Mulunkhie como um dos cinco melhores pratos que comeram na vida.

(*) Unidade de reconhecimento blindada da 15 Divisão Panzer.

(**) Cruz de cavaleiro da ordem de cruz de ferro, condecoração do exército prusiano existente desde 1813

(***) No casal que falava alemão era Josias Germano, Marília Olávia sabia apenas as coisas básicas do tipo: “Guten Morgen”, “verzeihung” e “mineralwasser mit kohlensäure” (“Bom dia”, “com licença” e “água mineral com gás”)

(****) Franciacorta: vinho espumante da região da Lombardia / Amarone: Amarone Della Valpolicella vinho tinto da região do Vêneto (uvas Corvina e Rondinella)

Also tagged

petersbar

EM UM BOTECO DE AÇORES

Josías Germano estava feliz… finalmente ele estava no Peter Café Sport na cidade de Horta, Ilha do Faial, Açores… sempre lera sobre aquele local… seja em Antonio Tabucchi, Enrique Vila-Matas ou Agustin Fernandez Mallo… aquele bar também fora eleito como um dos melhores do mundo pela revista Newsweek…

Ele achou que o bar lembrava vagamente um pequeno restaurante que estiveram anos atrás, em outra ilha… a ilha em questão se chamava Chiloé e ficava no Chile… lá havia uma cidade portuária chamada Ancud, na qual havia um pequeno restaurante chamado Kurantum (*), e realmente tinha elementos em comum com o Peter Café Sport: forração em madeira, bandeiras de vários países, decoração peculiar … inclusive havia uma placa genial com o seguinte dizer: “AQUI SE COME MAL PERO AL FRENTE SE COME PEOR”… lá realmente eles haviam comido mal.. o prato com o nome da casa era a atração principal… o Kurantum é muito famoso na patagônia chilena e argentina… um cozido com mariscos, frango, carne de porco, batata e um caldo bem temperado, feitos com uma folha também chamada Kurantum…

Ela concordou quanto a semelhança dos locais, mas disse que tinha arrepios e tremedeiras só de lembrar do gosto daquele prato…

Ele ponderou afirmando que a comida realmente não era boa… porém lembrou-se da plaquinha… – Se fôssemos comer no restaurante vizinho seria pior…

Mas agora estavam em outra ilha.. e não estavam guiando como em Chiloé, então podiam pedir bebidas… e deixar a tarde se esvair numa fluidez iluminadora…

– Vou iniciar os trabalhos com uma dose de genebra, tal qual os personagens de Enrique Vila-Matas no “Mal de Montano”… depois vou beber gin-tônico… é gozado que em Portugal, Algareve e Açores eles não falam “gin-tônica” mas “gin-tônico”….

– Eu vou de vinho verde respondeu Marília Olávia…. Ela inicialmente não aprovara a viagem aos Açores… preferia ir para a Grécia… mas agora vislumbrando as belezas daquelas ilhas, dera o braços a torcer e admitira que aqueles cenários deslumbrantes compensaram a viagem…

Após alguas doses a conversa descambou para um único assunto: o paralelo entre as pessoas que vivem em uma ilha de verdade e as pessoas que vivem em ilhas culturais….

– As ilhas reais são cercadas de um belo pedaço de oceano… já as ilhas culturais são cercadas por mares de ignorância…” afirmou Josias Germano

– “É, você tem razão… é por isso que rumamos para o caos…. para um tsunami de ignorância…. ondas de intolerância religiosa, de violência gratuita, de boçalidade tecnologizada… em meio a tudo isso um punhado de escritores, artistas e pensadores em seus mundinhos a refletir sobre os abismos que os cercam….

– E neste bar convergem os dois tipos de ilhéus, ou seja tanto os habitantes desta ilha chamada Faial, quanto os habitantes das ilhas culturais como um Antonio Tabucchi um Enrique Vila-Matas ou um Agustin Fernandez Mallo…

– E o resto dos frequentadores?

– O resto são turistas ou velejadores… Quanto aos velejadores, podemos fazer um paralelo com o apreciadores das artes, ora estão na ilha de um estilo pictórico ora na ilha de uma tendência literária… atravessam os mares da burrice, buscando repouso ora em um bom livro, ora em uma bela exposição…

– E os turistas?

– Os turistas são como ratos ou baratas… surgem de repente infestando o ambiente…

– Mas nós somos turistas… ou você acha que está no pequeno grupo dos grandes escritores?

– Não, apesar de publicar uma coisinha ou outra na internet, eu não me julgo um escritor… ainda mais do grupo de gênios como os que passaram por este local…. eu sou simplesmente um turista… mas sabe… há um jeito de se passar por turista…

– É mesmo? E qual é este jeito?

– É só não viajar… E ficar ilhado em sua cidade…

(*) Para ver sobre o restaurante Kurantum acesse:

http://www.zegeraldo.lugaralgum.com/?m=201204

Also tagged

veneznot

veneznot2

veneznot3

UM DIA DE FÉRIAS

Aquele fim de tarde estava magnífico… Josias Germano e Marília Olávia estavam em um bar escondido a beira do Grand Canale de Veneza… a funcionária do apartamento que eles alugaram deu a dica: um local totalmente escondido e de difícil acesso, só frequentado por locais… alguns ficavam lá dentro… outros, como os nossos protagonistas, pegavam suas bebidas, saiam e ficavam naquele pedaço da Calle Remer que desemboca no canal, apreciando o crepúsculo envolvendo o Grand Canale…

Ele reparou que aquele crepúsculo finalizava um dia magnífico: após o café da manhã foram a uma pequena loja de vinhos perto do Canale Cannaregio e enquanto o dono enchia uma garrafa com um vinho local vindo de barricas, eles conversaram com os senhores locais que iam lá para bater papo… um velhinho de boina e cachecol contava histórias da batalha de Monte Casino… enquanto uma velhinha arrumada de cabelo channel protestava contra os políticos corruptos…

Ela reparou que estes bate-papos fortuitos são a alma das viagens e que estava feliz por terem se hospedado naquele bairro, onde ainda existe uma vida local com pequenos comércios frequentados por moradores, ao contrário das imediações da Praça de São Marcos onde não existem ambientes cotidianos… somente ruas com lojas e calçadas entupidas de turistas…

Ele reparou que estava contente pois estava conheçendo lugares diferentes de Veneza, que não havia conhecido em sua passagem anterior pela cidade ocorrida há 17 anos atrás… Agora ele conhecera aquela parte da cidade voltada para a ilha de San Michelle onde está enterrado Erza Pound… Visitara a Igreja da Madonna dell’ Orto e ficara impressionado com os afrescos de Tintoretto: um representando Moisés recebendo as tábuas da Lei, outro com o Juízo Final..

Ela reparou no almoço: haviam comido um peixe grelhado divino denominado orata (pargo) com sal e limão siciliano acompanhado de um vinho branco do vêneto típico: uvas pinot grigio e verduzzo … quando ela foi ao toalete, reparou em uma travessa de tiramisu caseiro… só a sobremesa já valera a refeição senão o dia…

Ele reparou que o que valera dia, além do tiramissu, foi o quadro “Banquete na Casa de Levi” de Paolo Veronese que haviam visto no Museu da Academia… a monumentalidade da pintura o impressionou… já havia estado neste museu mas não se recoradara que era tão bom… os outros quadros que haviam visto lá também eram geniais: Tintorreto mostrando personagens flutuantes, Bellini e Carpaccio mostrando a arquitetura e os personagens de Veneza nos século XIII.

Enquando acabava de beber o seu negroni, Josias Germano disse: “Aliás é interessante como os venezianos homenagearam seus pintores: um virou nome de coquetel, outro de prato de entrada, dizem até que a homenagem a Carpaccio deve-se ao fato que em seus quadros vê-se aquele tom de vermelho característico das fatias de carne crua… faltam as homenagens para Veronese e Tintoretto.. sugiro um prato chamado Veronese e uma sobremesa chamada Tintoretto.. fica mais sonoro… imagine “Por favor dois veronese, um al´ dente outro normal” ou “ Por favor dois tintorettos e dois cafés”

Ela finalizou seu Aperol-Spritz e ambos rumaram para o aconchego do transitório lar… no caminho Josias Germano lembrou-se de um episódio do antigo seriado “Além da Imaginação” (The Twilight Zone*) no qual uma loira vai a uma loja de departamento para trocar um dedal de ouro e após alguns incidentes fica escondida na loja após o fechamento… ao caminhar nos corredores ouve os manequins exclamarem repreensões… os manequins tornam-se humanos e cercam a loira … ela então se recorda que é um manequim também e que durante um mês ao ano tinha permissão para se transformar em ser humano, porém estava atrasada no retorno… deveria ter voltado na véspera, mas se esquecera… os outros manequins conversam e uma morena apanha o elavador se despedindo dos demais… no dia seguinte a loja de departamento abre e enquanto acompanhamos o trajeto de um vendedor, reparamos que a loira havia se transformado em um manequim…

-”Esta estória é uma metáfora das férias”- exclamou Josias Germano -“durante um mês ao ano, podemos deixar de ser bonecos para nos transformar em pessoas…

Pois é – respondeu Marcília Olávia – então vamos viver com intensidade estes dias, pois logo mais nos transformaremos em bonecos…

E caminharam em direção ao Canale Cannaregio respirando a noite de Veneza…

(*) Episódio denominado “The After Hours” disponível na internet (em inglês)

Also tagged

brahol

A BATALHA DOS GUARARAPES DOS PERDEDORES

Josias Germano e Marília Olávia não gostavam de assistir partidas de futebol em bares e restaurantes… “Jogo de futebol é uma coisa séria… não dá pra assistir ao lado de um monte de gente tôsca falando sem parar!!!… é preciso silêncio para assistir pela tevê… ou então é melhor ir ao estádio… agora assistir jogo em bar é como o sapatênis que não tem a elegância do sapato nem o conforto do tênis…” – costumava dizer o nosso protagonista… Porém naquele sábado um casal de amigos que eles não viam há muito tempo ligou dizendo que estavam no restaurante português situado em frente ao lar habitado por Josias Germano e Marília Olávia…e que gostariam da assistir o Brasil X Holanda junto com eles… o jeito foi ir…

Ao chegar lá encontraram Alonso Hernandez e Suzana Navarro, (ele espanhol ela goiana, filha de espanhóis) tomando um vinho verde e comendo bolinhos de bacalhau.. o jeito foi sentar e acompanhar…

Começaram a falar sobre a Andaluzia, terra de Alonso e dos antepassados de Suzana e Marília… esta contou sobre a recente viagem à Espanha, Salamanca, Toledo, Córdoba, Granada, Sanlúcar de Barrameda e Gualchos, o vilarejo de onde veio seu avô…

Depois falaram sobre literatura… o nosso protagonista começou enaltecendo o jovem escritor espanhol Agustin Fernandez Mallo, pois havia lido “Limbo” seu mais recente livro ainda não editado no Brasil, que tinha sido comprado em uma livraria despretensiosa em Granada… depois falou sobre os autores que lera recentemente, Alejo Carpentier, Mário Benedetti, Macedônio Fernandes, e Euclides da Cunha… Marília Olávia disse que estava relendo Eça de Queiróz, Suzana Navarro disse que estava relendo Hilda Hilst e Alonso disse que estava lendo um uruguaio que tinha o mesmo sobrenome que ele, só que se chamava Felisberto.

Por fim falaram sobre a copa… o nosso protagonista fez um breve discursso que começou com a batalha de Guararapes, passou por diversos Brasil X Holanda: do inicial na Copa de 74, (quando o carrossel holandês de Cruyff superou a seleção de setenta requentada de Rivelino), para o histórico 3×2 da Copa de 74 (quando o escrete canarinho começou bem, sofreu uma pane e por fim fez um gol sofrido), passando pela semifinal de 98 (Pindorama ganhou nos pênaltis) e finalizando no penúltimo vexame: a eliminação na Copa da África do Sul… depois o assunto mudou para o vexame do escrete canarinho diante da blitzkrieg teutônica… ninguém ainda entendera os sete-a-um… para Marília Olávia o resultado era fruto da frieza alemâ, para Suzana Navarro era devido a imaturidade dos jogadores de Pindorama… Alonso Henandez por sua vez traçava paralelos do apagão de Belo Horizonte com outro apagão: a derrota do Santos para o Barcelona em 2011: em ambas as partidas o jogadores tupiniquins ficaram paralizados diante de uma equipe táticamente mais organizada… sem contar que os estilos de Felipão e Muricy são muito parecidos: ausência de meio de campo, chutões para a frente, gols de boila parada, etc…

Porém Josias Germano, adepto das teorias de Arthur Schopenhauer, tinha uma explicação diferente: segundo a lógica do filósofo alemão todos nós fazemos o que desejamos, só que o impulso do desejo se dá de forma inconsciente, de forma que quando alguém fracassa é porque desejava fracassar… ou seja, todos nossos sucessos e fracassos são coisas desejadas por nós… só que desejadas de forma inconsciente… desta forma, o grupo da seleção realmente desejava fracassar, desejava apanhar de sete-a-um… e talvez alguns jogadores, depois de ouvir aquele monte de palavras de auto-ajuda tenha, tenha sem querer, descoberto esta realidade: que o desejo deles era sofrer uma humilhação histórica… e por isto o choro, o pranto, aquelas lágrimas convulsivas derramadas antes das partidas: eles inconscientemente já sabiam que caminhavam ao encontro de seu desejo secreto: conseguir uma humilhação muito maior do que a seleção de 50… tanto que já começaram a Copa com um gol contra…

Quando o nosso protagonista acabou a explicação, chegou o bacalhau a Gomes de Sá acompanhado da segunda garrafa de vinho verde…

Então todos ficaram em silêncio e começaram a comer, assistindo o início da partida na tevê de tela plana e tendo a consciência que independente do terceiro o quarto lugar aquela seleção já havia conquistado o que sempre sonhara…

Also tagged

sao_paulo

UM ALMOÇO E SUAS CONSIDERAÇÕES

Josias Germano resolveu almoçar no centro de São Paulo, uma vez que pela tarde tinha uma reunião na R. Barão de Itapetininga… como estava um calor insuportável, ele optou por comer salada e sushi em um restaurante na R. Direita… geralmente o nosso protagonista não gostava de culinária japonesa em restaurante por quilo, mas naquele local a comida era bastante honesta, embora não fosse genial…

Josias Germano se dirigiu à R. Direita, no quarteirão entre o Largo do Patriarca e a R. Quintino Bocaiúva e não encontrou o restaurante… achou então que a casa ficasse na R. da Quitanda, mas também não era lá… então voltou à R. Direita e rememorando mais profundamente a arquitetura do restaurante descobriu que ele tinha se transformado em uma loja de sandálias… conversando com a atendente descobriu que tal comércio havia sido inaugurado há apenas uma semana…

O jeito foi ir ao velho e tradicional Restaurante Itamaraty, na R. José Bonifácio defronte ao Largo de São Francisco… ao entrar o capitão (*) abriu a porta para ele, que se lembrou que seu avô ia lá diariamente, e então ficou fazendo contas para tentar adivinhar se aquele funcionário havia algum dia aberto a porta para seu avô…

Sentou-se na mesma mesa, chamou o garçon pelo nome e escolheu primeiro a tradicional empadinha, depois um rosbife com salada de batatas, para beber água com gás…

No intervalo entre a empada (tão tradicional que só tem de palmito) e o prato principal, Josias Germano então pensou em outros restaurantes que fecharam no centro, bem mais tradicionais que o referido quilinho-japonês… se lembrou da leiteria Americana onde sua tia-avó Quepitas o levara para comer sundays & banana-splits em meados da década de setenta… leiteria que também servia cerveja, como naquela memorável noite em meados da década de noventa, em que foram comemorar a abertura da exposição de arte que o nosso protagonista realizou com Sávio Cacciaccinni, Sancho Ruiz Maldini, Alfeu Doaragna, Juliana Dilgorzi e Miraldo Xavier, naquela passagem após o viaduto do Chá sob a R. Xavier de Toledo (que hoje se encontra fechada)… naquela noite o famoso artista Maurício Nogueira Lima foi na “avernissagem” (*) e depois rumou com eles para tomar umas cervejas na Leiteria Americana…

Josias Germano acredita que a presença daquele ilustre pintor em sua “avernissagem” é um dos troféus que irão aparecer em sua biografia (se esta for um dia escrita, é claro)…

O nosso protagonista se lembrou então nos painel de Nogueira Lima no Largo de São Bento e nas pinturas do artista amigo nas escadas da Estação São Bento do Metrô… pensou então no painel de Tomie Othake na R. Xavier de Toledo e voltou a suas recordações aos restaurantes que já não existem mais…

Lembrou do Lírico que ficava na R, Líbero Badaró, do Carlino que começou na R. São João, mas que depois foi para a R. Vieira de Carvalho… pensou no Gigetto que começou na R. Nestor Pestana, mas que Josias conhecera na R. Avanhandava, e por sinal já não funcionava mais lá (dizem que vai reabrir)…

Ele então pensou em locais em que nunca estivera, mas que sempre sonhou conhecer… lugares que ele iria se existisse a máquina do tempo… lugares como a Cervejaria Franciscano na R. Líbero Badaró onde Mário de Andrade tomava seus chopps, o Salada Paulista na R. Ipiranga, no Jequiti-bar na R. 24 de Maio, na Salsicharia Dois Porquinhos na Av. São João, no bar do Hotel Esplanada na Praça Ramos da Azevedo, na Choperia Heidelberg (que teve que mudar de nome para Choperia Harmonia) na R. Xavier de Toledo, no Nick Bar (***) na R. Major Diogo (vizinho ao Teatro Brasileiro de Comédia)…

Ficou imaginando que com a invenção da máquina do tempo, a indústria do turismo iria abocanhar este filão de mercado: “Ouça Dick Farney tocando no Bar Simpatia na R. Xavier de Toledo no final da década de 40”, “Conheça os bares da Vila Isabel que Noel Rosa freqüentava” seria o anúncio de uma agência de turismo no tempo… então ele imaginou Noel Rosa horrorizado com o enorme fluxo de pessoas com roupas estranhas que começaram a aparecer nos botecos que ele tanto gostava e então o sambista da Vila iria comentar com seus parceiros de samba:

“- Este pessoal que começou a aparecer é muito estranho… vamos fugir para os bares do Estácio…”

Josias Germano abençoou então a (ainda) inexistência da máquina do tempo “ – Imagine a muvuca que seria a Semana de Arte Moderna com hordas de intelectuais oriundos das décadas futuras aborrecendo os modernistas.”

No caminho entre o Largo de São Francisco e a R. Barão de Itapetininga ele se lembrou de uma matéria que lera sobre o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, no qual este afirmara que a partir de 1500 D.C. acabara o mundo para os índios de Pindorama… mas que apesar disto, muitos séculos depois ainda sobraram algumas aldeias indígenas… e que com a classe burguesa está acontecendo o mesmo… que seu mundo está acabando… que durante muito tempo ainda existirão bons restaurantes e lugares bonitos, mas que seriam lugares totalmente isolados, sem qualquer vínculo com o entorno degradado pela histeria consumista….

O nosso protagonista pensou, pensou e pensou… tudo isto em uma fração de segundos… e concluiu que pessoas como ele já não tinham lugar nesta cidade infestada de crakeiros, nóinhas, emboabas, moderninhos, mauricinhos e patricinhas… que lugares como o Itamaraty irão permanecer por muitos anos, mas serão com as atuais aldeias indígenas… algo totalmente alheio e anacrônico… e então começou a comer o rosbife…

Após o almoço, chegando na esquina da Praça do Patriarca com a R. Líbero Badaró virou à esquerda em direção a um sebo que fica no meio do quarteirão… e lá comprou um livro editado em 1935 pela Companhia Editora Nacional: “O Selvagem: Curso de língua Tupi viva ou Nheengatú” – Bibliotheca Pedagógica Brasileira – Série V “Brasiliana” Vol . LII – escrito pelo Gen. José Vieira Couto de Magalhães.

Então rumou para a R. Barão de Itapetininga, onde outrora funcionaram a Confeitaria Vienense e a Confeitaria Seleta…

(*) Capitão é o nome que damos àquele porteiros com quepe e jaqueta (podem usar luvas brancas também) que abrem as portas para a gente nos restaurantes e hotéis…

(**) O termo “avernissagem” foi criado pelo músico e filósofo Sidney Molina, que é um neologismo com as palavras vernissage e aterrisagem.

(***) O nome Nick Bar vem da tradução da peça “The Time of Our Life” de William Saroyam quem em terras pindorâmicas passou a se chamar “Nick Bar… Álcool, Brinquedos e Ambições” e foi encenada em 1949 no TBC…. posteriormente Garoto e José Vasconcelos iriam compor “Nick Bar”, sucesso na voz e piano de Dick Farney.

Also tagged

berlin

PROCURANDO UM LIVRO

Josias Germano abriu aquela gaveta esperando encontrar o seu velho exemplar de “Com Vocês Antônio Maria” uma coletânea de crônicas do famoso compositor e jornalista pernambucano editada em 1994 pela Editora Paz e Terra… o motivo da busca era encontrar uma citação sobre a poesia de uma mulher dormindo, a beleza daquele corpo descansando em uma posição aconchegante…

Em vez de encontrar o tão esperado livro, ele achou seu velho álbum de fotografias das viagens que executara na década de noventa: sempre só, percorria de trem e de mochila as mais diversas cidades européias… se lembrou quando para economizar dormira em um depósito de toalhas no Hostal Vetusta em Madrid, se lembrou que quando chegou nesta cidade (a primeira que visitou no velho continente) passou três dias a base de gin, cerveja e porções de polvo, o que lhe rendeu uma tremenda infecção intestinal, lembrou-se da vernissage da exposição de Hélio Oiticica na Fundação Tapiás, em Barcelona, onde viu o cineasta Júlio Bressane deslocado, porém não teve coragem de ir lá conversar com ele (fato que se arrepende até hoje), se lembrou também da viagem de navio entre Le Havre (França) e Rosslare (Irlanda) quando para não ter que pagar cem doletas pela cabine individual, dormiu no chão da embarcação após encharcar-se de cerveja guinness e uísque irlandês, se lembrou de quando quase apanhou de quatro hooligans em Amsterdã (*), lembrou-se da emoção ao ver as obras de Agustin Lesage no Museu de Arte Brut em Lausanne no dia de seu aniversário, da seção de gravuras na British Library, em Londres, quando segurou em mãos obras de William Blake e Louis Wain, se lembrou das enormes colagens de Matisse no museu George Pompidou… vendo aquele álbum se lembrou também que só gostava de ser fotografado em movimento, por isso pedia para as pessoas tirassem fotos dele sempre andando… ele enquadrava a fotografia, passava a máquina para as mãos das pessoas que se dispunham a ajudá-lo e pedia: “quando eu estiver naquele ponto dispare a foto!”… achava que isto daria uma dinâmica das suas fotos de viagem… ele sempre caminhando.

gent

Depois pensou que aquela época de errâncias amorosas foi marcada pelas viagens solitárias, das quais os ícones eram as fotos caminhando solitário… eram viagens na base de “manhãs e tardes em museus e noites e mais noites em bares”… pensou que muito mais tarde descobriu aquela lição óbvia que afirma que as pessoas sempre buscam fora algo que na verdade está junto a elas… então pensou nas viagens atuais com sua cara metade Marília Olávia: hotéis cheirosos ao invés dos muquifos azedos em que se hospedara, carros alugados ao invés de trens sacolejantes, vinhos e pratos elaborados ao invés de destilados, cerveja e de vez em quando alguma comida, e muito mais importante que isso: alguém com que possamos conversar, reparar juntos nos mais diversos tipos humanos, dividir impressões sobre uma paisagem, comentar o sabor de um prato, tentar adivinhar seus ingredientes, trocar impressões a respeito de alguma obra de arte, …

Josias Germano largou o álbum e caminhou até o seu quarto… então observou sua esposa enrodilhada em um cobertor respirando suavemente…

Então finalmente ele se lembrou da frase de Antônio Maria:

“Nenhuma emoção é mais forte que a de entrar no quarto da mulher que dorme. Sentir-lhe o cheiro e o calor, no ar do quarto.”

anecy

(*) Josias Germano tomava uma cerveja em um bar em Amsterdã quando quatro hooligans sentaram ao seu redor puxando conversa de forma nada amistosa…. ele para cortar o assunto disse:

– I don’t Speak english.
– Where do you come from?
– I come from to Brazil.
– Show me your passport – responderam eles.
– I don’t need show my passport because my country have four Worlds Cups (este diálogo ocorreu logo após a Copa dos Estados Unidos em 1994).

Os quatro hooligans, que se diziam belgas, ficaram em silêncio, depois bateram palmas pausadamente… o nosso protagonista achou que já era a hora de ir embora, mas antes precisava terminar sua cerveja… também pegava mal sair correndo, então segurou o copo com uma mão e a garrafa com a outra e não largou até esvaziar a garrafa… sua intenção era estar com estes objetos a mão para atirá-los na cara do primeiro hooligan que viesse para cima dele… ele sabia que poderia ser espancado e que se isso ocorresse era melhor que o rosto do primeiro agressor ficasse sériamente desfigurado… os quatro mastodontes perceberam sua estratégia e gritaram para que ele soltasse o copo e a garrafa… Josias Germano olhou no fundo dos olhos do líder e reparou nos seus dentes quebrados e imundos enquanto este vociferava com a saliva escorrendo pelos cantos da boca… porém continuou segurando o copo e a garrafa até terminá-la com toda a calma do mundo… depois levantou-se e disse em bom português:

– Tchau bando de otários!!!

Also tagged

boteco

QUE SAMBA BOM

Naquela noite de quinta-feira, Josias Germano, cansado de tanto trabalho estacionou seu carro na rua Sampaio Viana e foi a pé buscar sua cara-metade Marília Olávia no hospital onde ela trabalha… o plano era ir para um destes bares sofisticadinhos para fazer um mais que merecido répisauer com cerveja indian pale ale e bruscheta de aliche… porém ao passar na esquina da referida via com a rua Cubatão o nosso protagonista ouviu algo que não acreditou estar ouvindo… era simplesmente o samba “Que Samba Bom” (Arnaldo Passos/Geraldo Pereira) que estava sendo cantado por um grupo de samba em um botecão na esquina em questão… como estava um pouco adiantado ele resolveu entrar e tomar uma cachaça enquanto dava a hora de sua esposa sair da labuta… não costumava tomar cachaça… só tomava pinga antes de comer feijoada ou virado à paulista, no mais das vezes preferia um bom vinho, uma cerveja especial ou os famosos coquetéis clássicos (dry-martini, manhatan, negroni, mint julep, etc.) mas desta vez resolveu tomar uma boa cachaça de alambique…

A arquitetura do bar era como a de qualquer boteco: piso de lajotas cerâmicas, parede forrada de azulejos, mesas de fórmica, geladeira de marca de cerveja, televisão ligada (sem som, é claro), painel com fotos das porções e dos pratos principais, etc… O nosso protagonista notou algo estranho no grupo que tocava este samba clássico… rapidamente descobriu o que era: era um conjunto de cegos… reparou então que diferentemente da música estadunidense com sua tradição de bluesmen cegos (*), na música de Pindorama não existem sambistas cegos famosos…

Após um plantão de doze horas, Marília Olávia adorou na sugestão de irem no botecão ouvir aquele conjunto tão peculiar… Ao chegar instalaram-se em uma mesa perto da roda de samba… os músicos estavam no intervalo e comiam sanduíches e bebiam cerveja em um mesa próxima num clima de plena descontração… os nossos protagonista então pediram cerveja em balde com gelo e carne seca com mandioca…

Quando os sambistas retornaram uma sucessão de sambas clássicos: “Não Tenho Lágrimas” (Max Bulhões e Mílton de Oliveira, sucesso no carnaval de 38), “Leva Meu Samba” (Ataulfo Alves), “Argumento” (Paulinho da Viola), “Com Que Roupa” (Noel Rosa) “Iracema” (Adoniran Barbosa) “Mora na Filosofia” (Arnaldo Passos/Monsueto), “Escurinha” (Arnaldo Passos/Geraldo Pereira) , “Silêncio No Bexiga” (Geraldo Filme), “Poeta de Rua” (Gilson de Souza), “Aos Pés da Santa Cruz” (Lauro Maia), “O Bonde São Januário” (Wilson Batista/Ataulfo Alves), etc…

Em meio àqueles sambas clássicos Josias Germano imaginou que o nome certo para aquele grupo seria “Os Jorges Luíses Borges do Samba”… depois reparou na alegria dos sambistas, especialmente do baterista (**) que parecia estar em transe… então pensou em si mesmo e se envergonhou… no mês passado esteve em Sevilha e após um surto filosófico, resolveu que não iria mais se dedicar ao desenho e a pintura, sua grande paixão… agora vendo aqueles cegos executarem com maestria as canções clássicas do samba percebeu como sua resolução era um tanto quanto ridícula… ele pleno dos cinco sentidos deveria sim lutar, lutar & lutar para que sua arte prevalecesse em meio a mediocridade generalizada… então retirou do bolso sua lapiseira 2,5 mm – grafite 6B e começou a desenhar o grupo de sambistas na toalha de papel…

(*) Blind Lemon Jefferson, Blind Willie Mc Tell, Blind Mississippi Morris, Sonny Terry, Ray Charles, Cortelia Clark, etc.)

(**) A presença de uma bateria em uma roda de samba é objeto de discussão… muitos dizem que ela é absolutamente desnecessária, uma vez que o samba é a junção de vários instrumentos percursivos (pandeiro, tamborim, cuíca, surdo, etc), porém apareceu um tal de Milton Banana e provou que a coisa não é bem assim…

Also tagged

censev3

censev2

censev1

PONDERAÇÕES SEVILHANAS

Ao contrário de sua primeira estadia em Sevilha, quando Josias Germano e sua fiel escudeira Marília Olávia visitaram a cidade em seu período de férias; a segunda passagem pela cidade não se revelava igualmente agradável… em primeiro lugar não estava acompanhado… sua esposa ficara em Pindorama… e em segundo lugar o nosso protagonista não gozava suas mais que merecidas férias… ao invés disto estava na cidade devido ao Congresso Ibero-americano de Mobilidade Urbana…

Apesar de sua palestra “Políticas de Incentivo ao Transporte Público” ter tido boa acolhida na comunidade acadêmica, Josias Germano caminhava cabisbaixo por las calles sevillanas… para ele o seu relativo sucesso como urbanista era a conta a ser paga por sua covardia de não ter insistido em sua vocação de artista plástico… a segurança de um emprego público o mediocrizara irreversívelmente… a princípio acreditou que seus dotes intelectuais o distinguissem de seus colegas de profissão, que o fato de ter lido Joyce, Klebnikov ou Felisberto Hernadez o fizesse alguém especial… que as conversas com seus amigos o mantivessem (ainda que esporadicamente) em um nível espiritual mais elevado… que poderia dar continuidade em sua carreira de artista plástico paralelamente ao trabalho com a cidade grande… chegou até a fazer algumas exposições… mas o tempo foi passando, alguns amigos morreram e dos outros acabou se distanciando… ao mesmo tempo foi galgando postos superiores em seu ambiente profissional e seu tempo livre foi se tornando cada vez mais escasso e os únicos registros de suas antigas e poucas exposições são recortes de jornal guardados em uma pasta encardida…

Agora estava sentado a mesa de um café e desenhava a paisagem enquanto saboreava seu expresso… notou uma mulher que atravessava a rua… era muito parecida com Marília Olávia… talvez fosse alguma parente distante, uma vez que sua fiel escudeira era neta de andaluzes… terminou o desenho, depois pediu uma água com gás e fez mais dois desenhos… agora já tinha uma trilogia… pagou a conta e seguiu caminhando de volta para o hotel…. porém mudou seu percurso… resolveu ir até o Guadalquivir, o rio que corta a cidade, cujo nome vem do árabe al-wādi al-kabīr (grande rio)…

Ficou horas observando o “al-wādi al-kabīr” e pensando na metáfora de Heráclito que diz que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio… a primeira vez em Sevilha descobrira o Alcázar, a Gironda, as ruas movimentadas, o jerez, as anchovas… na segunda vinda, a descoberta de seus medos, de suas covardias… olhou então para seus desenhos… não quis que aquela triologia fosse transportada até Pindorama para ir parar dentro de uma pasta encardida…

Josias Germano deixou as três obras de arte sobre um banco de praça e retornou a seu quarto no hotel… aquele retorno a Sevilha lhe mostrara que sua vida não tinha mais retorno, que jamais seria um artista plástico… que o único retorno possível seria o avião para Pindorama…

Also tagged

bonde

PASSEANDO EM LISBOA

Josias Germano e Marília Olávia acordaram no terceiro dia de sua estada em Lisboa, preferiram não tomar o café da manhã no hotel e caminharam para um restaurante-boteco na esquina da R. Alexandre Herculano com a R. Mouzinho da Silveira. Lá cada um tomou o seu café acompanhado por deliciosos pastéis de nata… o nosso protagonista salientou para a sua companheira que em Pindorama estes confeitos são chamados de “pastéis de Belém” enquanto que em terras lusitanas pastéis de Belém só podem ser consumidos no bairro de Belém, de modo que todo o resto dos “pastéis de Belém” em Portugal é denominado pastel de nata… Josias Germano continuou a conversa afirmando que o Presidente de Portugal leva uma tremenda vantagem sobre o Presidente do Brasil, pois a sua morada (o Palácio de Belém) está a duas (ou três) quadras da famosa doceria onde os referidos pastéis são produzidos, enquanto que em redor do Palácio da Alvorada só há asfalto, grama, espelhos d’água & emas….

Após o café da manhã a dupla protagonista rumou para o Castelo de São Jorge, reconstrução fake feita por Salazar em uma antiga fortificação… no caminho ruas que lembravam as clássicas ruas mal frequentadas das capitais carioca e baiana…

Josias seguia incomodado com a sua condição de turista, mesmo lembrando da frase “A melhor maneira de não dar uma de turista é não viajar” ou seja que não tinha mais jeito, que deveria bancar o turista e apreciar as terras alheias… depois lembrou-se que com a sobremodernidade o deslocamento espacial mais eficiente (mais pessoas viajando de avião, trens bala, etc.) somado ao crescimento da população mundial, o fluxo de turistas aumentou em todo o planeta: aeroportos caóticos, filas imensas para entrar nos edifícios históricos e a descaracterização do sítio histórico, que de um lugar (com uma função histórica) passara a ser um não-lugar (sem vínculos culturais), uma vez que a afluência contínua de pessoas oriundas de outros locais em visitas superficiais transformava o uso do solo no referido espaço, que antes funcionava como palácio ou fortaleza e agora passava a figurar com centro de visitação, um local de entretenimento… ele então explicou para a sua fiel escudeira que o castelo de São Jorge era uma exceção a regra, pois não havia se tornado um não-lugar em virtude do turismo (como em vários lugares famosos), mas que pelo caminho contrário, tornou-se primeiro um um não-lugar para depois atrair o turismo, uma vez que primeiro veio a reconstrução em estilo medieval (feita por Salazar na década de quarenta) para depois vir a turistada… o prédio originalmente era um alcácer (vila fortificada) na época em que Lisboa era muçulmana (a cidade então chamava-se Al-Ushbuna) e que depois da reconquista cristã em meados do século XII transformou em um castelo em homenagem a São Jorge, castelo este que foi seriamente avariado pelos terremotos ocorridos nos séculos XVI e XVII, caindo em decadência até a referida reconstrução.

Foram almoçar no Nova Ipanema na Av. Libertador, ambos pediram espeto de camarões e lulas, para beber ele pediu uma bagaçeira e uma cerveja e ela um copo de vinho branco alentejano… no almoço a conversa girou em torno de uma assunto recorrente: as pessoas que gostam de acordar cedo nas férias para aproveitar melhor o dia, como se as horas de férias valessem uma boa quantia (tempo é dinheiro) e portanto devessem ser aproveitadas na maior parte do tempo possível…

Josias Germano expôs para Marília Olávia o raciocínio tôsco deste tipo de pessoas: “já que tiramos um mês de férias para cada onze meses de trabalho, cada hora das férias vale onze horas de trabalho, logo um cochilo após o almoço, nas férias, pode significar vinte e duas horas de trabalho, ou seja a metade das horas pagas em um trabalho semanal regular”.

Depois foram para o hotel cochilar, é claro…após acordar e constatar que o cochilo que tiraram valeu bem mais a pena do que meia semana de trabalho… foram caminhar… tomaram o rumo ao bairro do Rato, mais precisamente na praça das Amoreiras, para apreciar a luz ao final do dia… lá se depararam com uma placa azul cobalto com a seguinte mensagem: UM AZUL COBALTO PARA A FELICIDADE… depois com uma placa amarelo limão escrito: UMA AMARELO LIMÃO PARA A GRAÇA… outra placa: UM LARANJA PARA EXERCER A VISÃO DE UM LIMOEIRO AO LONGE…

Eram frases de um poema chamado “Testamento” de Vieira da Silva, a ilustre pintora portuguesa, cujo museu (Fundação Arpad Szenes/Vieira da Silva) situa-se defronte a praça em questão…

Visitaram o museu, afinal Josias Germano afirmara com veemência que Portugal tem dois pintores geniais: Vieira da Silva e Almada Negreiros.. o segundo além de pintor genial também é um escritor genial, uma vez que seu conto “Saltimbancos” antecipa em cinco anos o famoso estilo de escrita que descreve o fluxo de consciência presente no final de “Ulisses” de James Joyce…

Voltaram pois precisavam jantar, porém ao chegar no Largo do Rato foram abordados por um senhor idoso embora ainda forte (lembrava um velho boxer), que trajava terno e gravata azul marinhos, camisa azul-clara. O senhor pediu pára que ambos apreciassem por instantes a Capela do Rato e então disse:

– “Para que serve a religião? Para as pessoas viverem em sociedade… porém existem outros seres, seres fantásticos… que vivem em sociedade em não possuem religião: as abelhas, os cupins e as formigas….”

Also tagged