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PONDERAÇÕES SEVILHANAS

Ao contrário de sua primeira estadia em Sevilha, quando Josias Germano e sua fiel escudeira Marília Olávia visitaram a cidade em seu período de férias; a segunda passagem pela cidade não se revelava igualmente agradável… em primeiro lugar não estava acompanhado… sua esposa ficara em Pindorama… e em segundo lugar o nosso protagonista não gozava suas mais que merecidas férias… ao invés disto estava na cidade devido ao Congresso Ibero-americano de Mobilidade Urbana…

Apesar de sua palestra “Políticas de Incentivo ao Transporte Público” ter tido boa acolhida na comunidade acadêmica, Josias Germano caminhava cabisbaixo por las calles sevillanas… para ele o seu relativo sucesso como urbanista era a conta a ser paga por sua covardia de não ter insistido em sua vocação de artista plástico… a segurança de um emprego público o mediocrizara irreversívelmente… a princípio acreditou que seus dotes intelectuais o distinguissem de seus colegas de profissão, que o fato de ter lido Joyce, Klebnikov ou Felisberto Hernadez o fizesse alguém especial… que as conversas com seus amigos o mantivessem (ainda que esporadicamente) em um nível espiritual mais elevado… que poderia dar continuidade em sua carreira de artista plástico paralelamente ao trabalho com a cidade grande… chegou até a fazer algumas exposições… mas o tempo foi passando, alguns amigos morreram e dos outros acabou se distanciando… ao mesmo tempo foi galgando postos superiores em seu ambiente profissional e seu tempo livre foi se tornando cada vez mais escasso e os únicos registros de suas antigas e poucas exposições são recortes de jornal guardados em uma pasta encardida…

Agora estava sentado a mesa de um café e desenhava a paisagem enquanto saboreava seu expresso… notou uma mulher que atravessava a rua… era muito parecida com Marília Olávia… talvez fosse alguma parente distante, uma vez que sua fiel escudeira era neta de andaluzes… terminou o desenho, depois pediu uma água com gás e fez mais dois desenhos… agora já tinha uma trilogia… pagou a conta e seguiu caminhando de volta para o hotel…. porém mudou seu percurso… resolveu ir até o Guadalquivir, o rio que corta a cidade, cujo nome vem do árabe al-wādi al-kabīr (grande rio)…

Ficou horas observando o “al-wādi al-kabīr” e pensando na metáfora de Heráclito que diz que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio… a primeira vez em Sevilha descobrira o Alcázar, a Gironda, as ruas movimentadas, o jerez, as anchovas… na segunda vinda, a descoberta de seus medos, de suas covardias… olhou então para seus desenhos… não quis que aquela triologia fosse transportada até Pindorama para ir parar dentro de uma pasta encardida…

Josias Germano deixou as três obras de arte sobre um banco de praça e retornou a seu quarto no hotel… aquele retorno a Sevilha lhe mostrara que sua vida não tinha mais retorno, que jamais seria um artista plástico… que o único retorno possível seria o avião para Pindorama…

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PASSEANDO EM LISBOA

Josias Germano e Marília Olávia acordaram no terceiro dia de sua estada em Lisboa, preferiram não tomar o café da manhã no hotel e caminharam para um restaurante-boteco na esquina da R. Alexandre Herculano com a R. Mouzinho da Silveira. Lá cada um tomou o seu café acompanhado por deliciosos pastéis de nata… o nosso protagonista salientou para a sua companheira que em Pindorama estes confeitos são chamados de “pastéis de Belém” enquanto que em terras lusitanas pastéis de Belém só podem ser consumidos no bairro de Belém, de modo que todo o resto dos “pastéis de Belém” em Portugal é denominado pastel de nata… Josias Germano continuou a conversa afirmando que o Presidente de Portugal leva uma tremenda vantagem sobre o Presidente do Brasil, pois a sua morada (o Palácio de Belém) está a duas (ou três) quadras da famosa doceria onde os referidos pastéis são produzidos, enquanto que em redor do Palácio da Alvorada só há asfalto, grama, espelhos d’água & emas….

Após o café da manhã a dupla protagonista rumou para o Castelo de São Jorge, reconstrução fake feita por Salazar em uma antiga fortificação… no caminho ruas que lembravam as clássicas ruas mal frequentadas das capitais carioca e baiana…

Josias seguia incomodado com a sua condição de turista, mesmo lembrando da frase “A melhor maneira de não dar uma de turista é não viajar” ou seja que não tinha mais jeito, que deveria bancar o turista e apreciar as terras alheias… depois lembrou-se que com a sobremodernidade o deslocamento espacial mais eficiente (mais pessoas viajando de avião, trens bala, etc.) somado ao crescimento da população mundial, o fluxo de turistas aumentou em todo o planeta: aeroportos caóticos, filas imensas para entrar nos edifícios históricos e a descaracterização do sítio histórico, que de um lugar (com uma função histórica) passara a ser um não-lugar (sem vínculos culturais), uma vez que a afluência contínua de pessoas oriundas de outros locais em visitas superficiais transformava o uso do solo no referido espaço, que antes funcionava como palácio ou fortaleza e agora passava a figurar com centro de visitação, um local de entretenimento… ele então explicou para a sua fiel escudeira que o castelo de São Jorge era uma exceção a regra, pois não havia se tornado um não-lugar em virtude do turismo (como em vários lugares famosos), mas que pelo caminho contrário, tornou-se primeiro um um não-lugar para depois atrair o turismo, uma vez que primeiro veio a reconstrução em estilo medieval (feita por Salazar na década de quarenta) para depois vir a turistada… o prédio originalmente era um alcácer (vila fortificada) na época em que Lisboa era muçulmana (a cidade então chamava-se Al-Ushbuna) e que depois da reconquista cristã em meados do século XII transformou em um castelo em homenagem a São Jorge, castelo este que foi seriamente avariado pelos terremotos ocorridos nos séculos XVI e XVII, caindo em decadência até a referida reconstrução.

Foram almoçar no Nova Ipanema na Av. Libertador, ambos pediram espeto de camarões e lulas, para beber ele pediu uma bagaçeira e uma cerveja e ela um copo de vinho branco alentejano… no almoço a conversa girou em torno de uma assunto recorrente: as pessoas que gostam de acordar cedo nas férias para aproveitar melhor o dia, como se as horas de férias valessem uma boa quantia (tempo é dinheiro) e portanto devessem ser aproveitadas na maior parte do tempo possível…

Josias Germano expôs para Marília Olávia o raciocínio tôsco deste tipo de pessoas: “já que tiramos um mês de férias para cada onze meses de trabalho, cada hora das férias vale onze horas de trabalho, logo um cochilo após o almoço, nas férias, pode significar vinte e duas horas de trabalho, ou seja a metade das horas pagas em um trabalho semanal regular”.

Depois foram para o hotel cochilar, é claro…após acordar e constatar que o cochilo que tiraram valeu bem mais a pena do que meia semana de trabalho… foram caminhar… tomaram o rumo ao bairro do Rato, mais precisamente na praça das Amoreiras, para apreciar a luz ao final do dia… lá se depararam com uma placa azul cobalto com a seguinte mensagem: UM AZUL COBALTO PARA A FELICIDADE… depois com uma placa amarelo limão escrito: UMA AMARELO LIMÃO PARA A GRAÇA… outra placa: UM LARANJA PARA EXERCER A VISÃO DE UM LIMOEIRO AO LONGE…

Eram frases de um poema chamado “Testamento” de Vieira da Silva, a ilustre pintora portuguesa, cujo museu (Fundação Arpad Szenes/Vieira da Silva) situa-se defronte a praça em questão…

Visitaram o museu, afinal Josias Germano afirmara com veemência que Portugal tem dois pintores geniais: Vieira da Silva e Almada Negreiros.. o segundo além de pintor genial também é um escritor genial, uma vez que seu conto “Saltimbancos” antecipa em cinco anos o famoso estilo de escrita que descreve o fluxo de consciência presente no final de “Ulisses” de James Joyce…

Voltaram pois precisavam jantar, porém ao chegar no Largo do Rato foram abordados por um senhor idoso embora ainda forte (lembrava um velho boxer), que trajava terno e gravata azul marinhos, camisa azul-clara. O senhor pediu pára que ambos apreciassem por instantes a Capela do Rato e então disse:

– “Para que serve a religião? Para as pessoas viverem em sociedade… porém existem outros seres, seres fantásticos… que vivem em sociedade em não possuem religião: as abelhas, os cupins e as formigas….”

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CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA PAISAGEM URBANA

Josias Germano olhou pela janela e observou a paisagem com atenção: o Teatro Municipal, o Viaduto do Chá, a chegada da Rua Xavier de Toledo com a Praça Ramos de Azevedo…

Uma das vantagens de seu novo cargo era poder observar esta paisagem nas janelas de sua sala de trabalho… cada olhar evocava uma ou mais lembranças… Pra começar o Teatro Municipal, que tanto o fez recordar o início dos anos oitenta, em que era usado como palco de shows de música popular…

Recordou-se também quando teve que desenhar o prédio como trabalho para a Faculdade de Arquitetura que cursara… a construção, projeto que os arquitetos italianos Domiziano Rossi e Cláudio Rossi (*) desenvolveram para o escritório de Francisco de Paula Ramos de Azevedo, era difícil de desenhar devido a enormidade de detalhes, porém a harmonia de seu conjunto de certa forma facilitava a tarefa…

Lembrou-se da R. Xavier de Toledo onde sua tia-avó Quepitas o levara na Leiteria Americana junto com as irmãs e as primas para comer sundays & banana-splits em meados da década de setenta… lembrou-se também do início da década de noventa quando em conjunto com um outro Xavier, cujo nome era Miraldo, elaborou um projeto de reconfiguração viária para esta rua… projeto que foi abortado devido a interesses do prefeito sucessor atendendo interesses de uma associação de bairro que pretendia facilitar o acesso de automóveis a esta região da cidade…

Lembrou-se que, graças a um renomado escritor denominado Volney Valter J’ Tobag, conseguiu autorização para expor suas pinturas naquela galeria subterrânea que realiza a travessia sob a Rua Xavier de Toledo (**)… elas ficaram expostas ao lado das obras de Sávio Cacciaccinni, Sancho Ruiz Maldini, Alfeu Doaragna e Juliana Dilgorzi, das poesias de Miraldo Xavier, bem como exibir os vídeos “A Selva de Azeviche e o Coringa da Oitava Dimensão” e “Parangolixo” que ele fez em parceria com Hildon Cláudio Risério e Fúlvio Dicaravaggio… a inauguração foi um sucesso, tanto que até o famoso artista Maurício Nogueira Lima compareceu… depois todos foram comemorar na Leiteria Americana…

O nosso protagonista comparou suas lembranças, a do sorvete com a tia-avó e a das cervejas com os amigos artistas…”Duas épocas… agora a Leiteria Americana não existe mais!!!

Depois lembrou-se que na noite anterior havia lidos sobre a Teoria do Não-Lugar, elaborada pelo etnólogo Marc Augé, que definia duas categorias de espaço: o Lugar e o Não-Lugar… a grosso modo, Lugar é um espaço personalizado, familiar com história & estórias… já um Não-Lugar é um espaço despersonalizado, impessoal, sem vínculo com a cultura e a história do ambiente lindeiro, como o caso dos shopping-centers, aeroportos, hospitais, etc… Como o caso de uma região de São Paulo que tanto o incomodava: a Vila Olímpia, aquela região da “Nova Faria Lima”… aquela paisagem poderia ser a de Dubai, Xangai ou Houston, e tal fato o contrariava profundamente…

Josias Germano olhou pela janela e observou a paisagem com atenção: o Teatro Municipal, o Viaduto do Chá, a chegada da Rua Xavier de Toledo com a Praça Ramos de Azevedo.. e teve a certeza que estava observando um Lugar…

(*) Que apesar do sobre-nome comum não eram parentes, como também não eram parentes de um cantor chamado Reginaldo com o mesmo sobre-nome…
(**) Esta galeria encontra-se fechada atualmente.

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UM DIA NA CIDADE

Josias Germano chegou ao ponto de ônibus cismado… depois de anos e anos andando de carro ele compreendeu que já não estava mais acostumado a usar o transporte coletivo… agora ele tinha um bilhete único e iria usá-lo pela primeira vez: “basta encostar o bilhete no controle junto a catraca que um letreiro eletrônico anunciará o desconto no saldo do cartão e você passa na boa”, foi o que falou sua esposa Maria Olávia.

Entretanto ele estava apreensivo, afinal algo sempre pode dar errado… porém foi tudo normal… Chegou ao centro “super-rápido”, afinal valera a pena a opção pelo transporte coletivo, pois havia realizado o trajeto confortavelmente em apenas quinze minutos… agora ele iria trabalhar no centro da cidade no prédio da diretoria da empresa… agora ele não precisava mais almoçar em shopping-center… poderia almoçar em restaurantes de verdade… e foi o que ele fez… após período da manhã, no qual ele fora apresentado para seus novos colegas de escritório ele foi realizar algo que sempre desejara: almoçar no Itamarati, no Largo de São Francisco, um restaurante com mais de cinqüenta anos, freqüentado pelos seus pais e avós…

Ao entrar já se surpreendeu: deu de cara com um legítimo “capitão”, ou seja um daqueles porteiros de quepe e paletó-jaquetão com botões dourados, cuja única função era abrir a porta e dar bom dia aos fregueses… (mais tarde ele descobriu que não era bem a única função pois o “capitão” para fugir do tédio ajudava na arrumação das mesas)… depois continuou gostando: num amplo salão com paredes de lambris de madeira decorado com cartazes antigos de sorvete, uma brigada de garçons-garçons (*) servindo pratos clássicos do tipo leitão a pururuca, salsichão com salada de batatas, lula a provençal , etc… para começar pediu uma empadinha (**) depois um arroz-de polvo (***) e pudim de leite, para beber água com gás e café…

Depois o nosso protagonista, ao sair do Itamarati reparou no Largo de São Francisco e lembrou do novo Papa, jesuíta como o Padre Antônio Vieira… “James Joyce estudou com os jesuítas, já Paulo Leminsky estudou no Mosteiro de São Bento, que fica perto daqui” – pensou…

O “segundo-tempo” do trabalho foi normal… conseguiu sair a tempo de “pegar” a galeria do Rock aberta… chegando lá foi logo na clássica Baratos Afins e lá encontrou uma raridade: O Long-playng (elepê) “Standing Ovation”, no qual a genial cantora Gladys Knight canta “Help Me Make Through The Night” a canção-tema do filme “Fay City” dirigido por John Huston…

Antes de entrar no metrô, teve tempo de apreciar a pintura de Maurício Nogueira Lima (um tanto desgastada) na empena de um prédio no Largo de São Bento voltada para op Mosteiro onde Paulo Leminsky estudou… depois dentro do vagão lembrou-se da coreografia característica que era feita pelo grupo que acompanhava Gladys Knight: um grupo vocal chamado The Pips… “se os craques de hoje que fazem estas dancinhas ridículas na comemoração dos gols, assistissem a um clip dos The Pips morreriam de vergonha” – pensou.

Ao chegar em casa encontrou sua cara-metade Marília Olávia e se sentiu como um Ulisses retornando a sua Ítaca… argumentou para ela que o retorno ao aconchego do lar é um dos temas clássicos da literatura… e que cada dia é uma pequena Ilíada… depois foram no restaurante da portuguesa, que fica no outro lado da rua…

(*) garçons-garçons significa garçons de verdade: pessoas maduras vestindo smoking jacket com gravata borboleta, nada daqueles estudantes vestidos de preto e gel no cabelo

(**) um parente dissera que o salgado era uma das marcas registradas do restaurante e que só tinha empadinha de palmito – “não adianta pedir empada de frango ou de camarão que não tem!”

(***) O nosso protagonista lera uma crônica sobre o referido restaurante que enaltecera este prato, crônica esta escrita por Zelino Zamparini, autor de “Lágrimas Gargalhantes”, um dos livros preferidos de Josias Germano.

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OS HERÓIS DO FAROESTE

Josias Germano almoçou em casa: arroz requentado e o resto do peixe empanado com curry e farinha de grão de bico ao molho de iogurte com alho e hortelã (Tali Machli) uma receita indiana que ele e sua esposa Marília Olávia haviam feito para o jantar da noite anterior, no qual convidaram seu cunhado Ismael.

Naquele sábado o nosso protagonista almoçava sozinho, pois sua fiel escudeira estava trabalhando… após a refeição ele iria a pé até um shopping center próximo de sua residência assistir ao mais recente filme de Tarantino…

Durante o almoço ligou a televisão a começou a assistir “Giù la testa” (“Quando Explode a Vingança”) que o cineasta italiano Sergio Leone dirigira em 1971… após o almoço, bebeu uma dose de um bourbon de excelente qualidade e assistiu um pouco mais do filme… achou esquisito que o filme (ambientado na Revolução Mexicana, que ocorreu em 1913) mostrava um ex-terrorista do IRA (Exército Revolucionário Irlandês) dirigindo uma motocicleta um tanto moderna para a época… mais tarde, pesquisando descobriu que a organização revolucionária irlandesa existente na época não era o IRA e sim o I.R.B.” (Irish Republican Brotherhood) e que a motocicleta usada era um modelo de 1928…

Chegou em cima da hora, mas achou que não haveria problema… ledo engano: nestes cinemas de shopping tipo um, dois, três, quatro, cinco e seis, a bilheteria era unificada e a fila multiplicada… após quinze minutos constatou que ainda estava na metade da fila, que estava quente, que as conversas boçais ao seu lado o estavam irritando, que era um absurdo ficar meia hora na fila para assistir um filme… e foi embora…

Caminhou pela Avenida Paulista se lamentado não ter ficado em casa assitindo o filme de Sérgio Leone, depois pensou sobre o fim dos cinemas de bairro e o império dos cinemas de shopping… lembrou-se de antigas salas de cinema: o Cine Comodoro na Av. São João, o Cine Bijou na Pça Rossevelt, o Cine Niterói na Av. Liberdade, O Cine Metrópole na Av. São Luiz, O Cine Marabá na Av, Ipiranga, O Cine Paissandú na avenida homônima, o cine Biarritz na R. Brig. Luiz Antônio… alguns cinemas sobreviveram: o Astor virou o Cine Livraria Cultura, o Majestic virou o Espaço Cultural Itaú, mas a maioria fechou…

Andou um pouco mais até chegar em uma livraria, lá comprou “Cartas a Nora” de James Joyce , entrou em um café e pediu um expresso e água com gás… abriu o livro aleatóriamente e se deparou com o seguinte texto:

”Amei nela a imagem da beleza do mundo, o mistério e a beleza da própria vida, a beleza e o destino da raça do qual sou filho, as imagens de pureza espiritual e de piedade nas quais acreditei quando criança.

Sua alma! Seu nome! Seus olhos! Eles se parecem com belas e raras flores silvestres azuis crescendo em alguma sebe emaranhada e molhada de chuva. E eu senti sua alma estremecer junto da minha, e murmurei seu nome para a noite, e chorei ao ver a beleza do mundo passar como um sonho através dos seus olhos.” (*)

Percebeu que os grandes artistas são como os heróis solitários dos faroestes, em meio a toda adversidade, a toda aridez cultural, eles irrompem de tempos em tempos para desafiar a boçalidade dominante, depois partem, deixando neste mundo a sua marca derradeira…

Depois de tudo isto Josias Germano olhou no relógio e viu que já era hora de buscar sua esposa no trabalho e tomar um aperitivo apreciando o fim de tarde…

(*) James Joyce – Tradução: Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante

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A VELHA FAZENDA

Após tanto tempo Josias Germano retornava à antiga fazenda Santa Judith, que pertencera a seu avô, no município de Tabijú (situado no meio do caminho entre Araraquara e Jaú), no interior paulista… aliás sobre o nome da cidade, uma curiosidade: pesquisando na internétis, o nosso protagonista descobriu que uma provável origem do nome Trabiju foi a expressão “trés bijoux” utilizada por engenheiros ferroviários franceses ao avistar o local em questão… Josias sabia que aquilo era coisa de seu avô, o velho Josias, que gostava de inventar e(hi)stórias, uma vez que as ferrovias paulistas foram construídas por engenheiros ingleses e não franceses, além do mais Trabijú não tinha nada de especial para despertar tais exclamações…

Depois de passar pela entrada, a mesma desde a década de setenta (sob um rústico pórtico a inscrição “Fazenda Santa Judith” em uma placa azul com as letras brancas), o nosso protagonista percebeu que nada mudara: a longa descida entre os algodoais até o curral, depois virar á direita, e seguir até a sede…

A construção estava idêntica, tal qual as lembranças de sua infância: as duas redes, colocadas nas extremidades da ampla varanda, que rodeada por jardineiras baixas, cheias de espinheiras, pintadas em cinza com tarjas brancas… o mesmo chão de lajotas, os mesmos pôsteres feitos de cartazes de exposições de Picasso, as mesmas poltronas de couro, os mesmos lustres da sala construídos com rodas de carroça… o mesmo piano-bar, no qual um piano de cauda repousava sobre um piso de azulejos hidráulicos pretos e brancos, tal qual um tabuleiro de xadrez, ao lado de um balcão de bar de madeira escura cujo fundo apresentava uma vasta variedades de bebidas extremamente requintadas…

O despertador tocou, o nosso protagonista e sua esposa Marília Olávia estavam passando férias na Anadaluzia, mais precisamente em Alcalá de Los Gazules, e mais uma vez ele sonhara que estava de volta a fazenda do seu avô… era um sonho recorrente… ele ficou alguns momentos recordando o que sonhara e achou engraçado que no sonho aparecesse o piano-bar… no resto a fazenda sonhada era bem semelhante a de suas lembranças, com exceção aquele piano-bar que jamais existira…

Após um desayuno composto por embutidos gazules (com destaque especial para o jamón belota), gazpacho andaluz e suco de pomelo, o casal protagonista foi dar um passeio pelo vilarejo de casas brancas, pelas ruínas do castelo e das muralhas muçulmanas e depois pelas cercanias repletas de oliveiras e mais oliveiras… durante o passeio Josias Germano perguntava a si-mesmo qual era o motivo daquele sonho? Por que sempre a fazenda de seu avô?

Ao retornar ao vilarejo, uma pausa em um boteco local para umas taças de jerez… ao saborear aquele vinho com gosto de concha marinha, Josias reparou que na parede do bar havia uma reprodução de “Le déjeuner sur l’herbe” uma releitura que Pablo Picasso fizera da obra homônima de Edouard Manet… lembrou-se então que na fazenda “Santa Judith” havia um poster idêntico (seu avô fora um pioneiro em emoldurar pôsters, que costumava trazer de suas andanças européias)

Foi então que o nosso amigo percebeu que a fazenda é um símbolo da infância feliz, do aconchego familiar em meio a um ambiente rústico porém culturalmente requintado; e que em todo lugar com tais características, como era o caso de Alcalá de Los Gazules, estaria sempre na fazenda de seu avô…

− Um brinde a Trabiju!!! falou em voz alta.

Marília Olávia arregalou os seus olhos mouros espantada olhando assustada para sua cara metade e antes que ela dissesse algo Josias emendou:

– Calma que, no hotel eu explico…

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EM UM QUENTE E CÁUSTICO DEZEMBRO

Dezembro, fim-de-ano, a sensação de relaxamento diante do ano que estava acabando – é preciso fechar para balanço, pensar no ano que se foi – filosofava Josias Germano, em meio a um engarrafamento matinal… fora um ano de realizações, a compra do apartamento, a conclusão do mestrado, a perspectiva de uma futura ascenção profissional, o título da Copa Sul-Americana conquistado heroicamente pelo tricolor paulista… mas nem tudo eram alegrias… Pedro Venâncio seu grande amigo se fora… assim como se foram também grandes nomes das artes: Oscar Niemayer , Dave Brubeck e Décio Pignatari… ele sabia que o poeta nunca fizera algo como a maquise do Ibirapuera ou o álbum “Take Five” , mas durante a faculdade fora aluno de Pignatari, ou seja conhecera-o pessoalmente… Décio não se tornara seu amigo… mas notava que o mestre tinha mais satisfação em responder suas indagações aparentemente vindas do nada, do que aquelas perguntas previamente elaboradas, vindas de determinados alunos com intenção em demonstrar conhecimento refinado…

Como o trânsito estava definitivamente caótico, o nosso protagonista resolveu ligar o rádio e descobriu que um acidente fatal com motocicleta literalmente parara a capital paulista – o trânsito de São Paulo é igual a saúde de alguém muito idoso- refletiu – qualquer resfriadinho vira pneumonia… qualquer caminhão quebrado, acidente com moto, atropelamento gera um a lentidão monstruosa afetando a milhares de cidadões…

E então a radio toca o seu refrâo:

“Vão bora! Vão Bora!
Tá na hora! Na hora!”

Como ir embora nesta lentidão… é um absurdo – pensou Josias Germano – chega desta rádio reacionária que só exibe essa musiquinha de manhã, na hora de entrar no trabalho, nunca toca este refrão na parte da tarde… como que só tivesse hora para entrar no trabalho, nunca para sair…

Josias Germano olhou o semáforo que devido ao engarrafamento não conseguia transpor, lembrou-se então que a palavra semáforo é derivada do termo ”semeion” que em grego significa signo… a mesma raiz da palavra semiótica… recordou-se do título de seu trabalho de conclusão de curso na pós-graduação “Semiótica na Sinalização de Trânsito – paradigmas e sintagmas da sinalização viária” … notou também que o “semi” da semiótica estava degenarado: semijóias e carros seminovos eram um indício da degeneração dos signos da comunicação moderna…

Lembrou-se então que no porta-luva do automóvel havia um exemplar de “O que é Comunicação Poética” de Décio Pignatari, livro que usara como subsídio a seu trabalho de graduação… Como o trânsito não andava e o calor começara a se tornar ensandecedor, resolveu ler trechos da obra do poeta de Jundiaí:

“Para o poeta, mergulhar na vida e mergulhar na linguagem é (quase) a mesma coisa. Ele vive o conflito signo vs coisa. Sabe (isto é, sente o sabor) que a palavra ‘amor’ não é o amor – e não se conforma…

De repente então o estrondo, o motoqueiro indo embora apressado e o espelho retrovisor direito virado….

Josias Germano xingou a “raça dos motoqueiros”, como costuma a fazer com a “raça dos taxistas” – O mundo está a cada dia pior, estamos todos perdendo a noção das coisas – recordou-se então daquele poema de Torquato Neto que dizia:

“É preciso que haja algum respeito
ao menos um esboço:
ou a dignidade humana se firmará a machadadas”

Pensou então em comprar um machado… lembrou-se que no início do próximo ano iria a Assis, no interior de São Paulo, visitar seus sogros, e que nesta cidade havia uma loja chamada “Casa das Miudezas”, que vende tudo: anzóis, artigos de papelaria, veneno de barata, botinas, cedês virgens, armarinhos e até servia cerveja em um pequeno balção – com certeza deve ter machado – refletiu o nosso amigo…

Depois ficou com pena do motoqueiro que morrera na Marginal e estava causando todo este transtorno… lembrou-se então da canção de Chico Buarque que dizia

“morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego”

recordou então o arranjo que Rogério Duprat havia composto para “Construção” então, como o trânsito não andava mesmo, resolveu ler mais Pignatari:

O poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem, fazendo poema. Está sempre criando e re-criando a linguagem. Vale dizer: está sempre criando o mundo. Para ele, a linguagem é um ser vivo.”

Voltou então a lembrar-se de Torquato Neto e de sua amizade com Pignatari, o poeta de Teresina homenageara o semiótico de Jundiaí no título da canção que compusera com Gilberto Gil e também da coluna que publicou no jornal Última Hora: “Geléia Geral”, retirado da frase de Pignatari:

“Alguém, na geléia geral brasileira, tem de exercer as funções de medula e osso”

… então do nada apareceu outro motoqueiro e bateu de leve no vidro do carro de Josias Germano… o nosso protagonista se assustou, porém o motoqueiro apontou para o espelho retrovisor revirado e colocou o retrovisor de volta à posição correta… o nosso protagonista fez sinal de positivo e deu um leve toque na buzina em sinal de aprovação… o segundo motoqueiro partiu amistosamente…

Josias Germano então julgou ter presenciado uma das epifanias, manifestações divinas em pequenos atos do cotidiano, tão comentadas por James Joyce… pensou então que o mundo não estava tão boçalizado, que existiam pequenas demonstrações de que nem tudo está perdido…pensou então que quando fosse a Assis não precisaria mais comprar o machado.

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A INCRÍVEL ESTÓRIA DE ODAIRE VOLTAIRE

1- IR

Definitivamente, Odaire Voltaire Itaglianinni Mouzinho não era um pessoa com uma vida comum… nascera em outubro de 1944, durante o bombardeio de Roma… filho do filósofo português Moacyr Mouzinho e da escritora italiana Itala Itaglianinni… seu pai fugira do Portugal salazarista, sua mãe filha de uma condessa russa com um aristocrata genovês, se desiludira da cultura ocidental…

Apesar de uma infância de privações, o nosso protagonista participou como figurante do filme “La Strada” de Frederico Fellini em 1952, onde aparece em uma praça em meio a pessoas que assistiam a um circo de rua… neste dia, durante as filmagens ele fez uma promessa para si mesmo: -”Io diventerò un artista” (*)

Na juventude formou um das primeiros grupos de rock italianos, o “L’effervescente Zucchine” cujo principal sucesso era “Il Tempo È Dalla Mia Parte” uma versão italiana de “Time Is On My Side”… até hoje ele guarda uma foto da banda, e não se cansa de mostrar para seus amigos de bar…

O “L’effervescente Zucchine” fez um enorme sucesso na Itália, seus shows eram sempre espetaculares, desde as apresentações nos ginásios das principais cidades (Roma, Firenze, Milão Turim, etc.) até as pequenas turnês como a da Sicília no verão de 1963 ou a da Costa Amalfitana durante a primavera de 1964…. porém seguindo o caminho oposto ao do grupo de rock brasileiro “Os Incríveis” que estourou na Itália, o “L’effervescente Zucchine” achou que poderia fazer sucesso em Pindorama …

Ledo engano… a sonoridade da banda era muito avançada… uma espécie de dodecafonismo psicodélico… a turnê foi um fracasso total… talvez se eles tivessem vindo ao Brasil na época da tropicália a estória poderia ser outra… Todos retornaram para o país natal, menos Odaire Voltaire, que familiarizado com a lingua portuguesa (afinal era um Mouzinho), resolveu ficar para ver no que dava…

Largou então a música e passou a se dedicar às artes plásticas, expondo junto com Gershman, Antônio Dias e Maurício Nogueira Lima… participou da exposição de arte “Apocalipopótese” no aterro do Flamengo em 1968, junto com Hélio Oiticica, Lygia Clark, Rogério Duarte, etc… lá conheceu Lúcia Laércia, que no ano seguinte iria tornar-se sua esposa… porém após o casamento rumores e boatos que diziam que ele era um membro das Brigate Rosse, obrigaram nosso protagonista e sua esposa (grávida nesta altura do campeonato) a deixarem Pindorama através da República Oriental (traduzindo: sairem do Brasil através do Uruguai)…

2- VOLTAR

Uma vez em meados dos anos setenta em um pequeno bar perto da estação de trem de Brindisi, Odaire Voltaire puxou conversa com o famoso cantor Domenico Modugno, e após beber uma longa série de dry-martinis, começou a contar sobre sua vida… disse que vivera no Brasil e que lá havia se casado com uma bella ragazza, mas que havia voltado à Itália onde havia tido uma filha… logo depois se separou… a ex-mulher continuou a morar na Itália, mas nunca o deixou se aproximar da criança…de vez em quando ele ligava fingindo que era engano, só para ouvir a voz da criança no telefone… Domênico Modugno ouviu a estória com lágrimas nos olhos… semanas depois Odaire Voltaire entrou em uma sorveteria perto da Fortezza Vecchia em Livorno e ouviu uma nova canção de Modugno: “Piange il Telefono”… era a sua estória… tempos depois fizerem uma versão brasileira chamada O Telefone Chora” gravada por um cantor chamado Márcio José…

Meses depois do famoso encontro em Brindisi, Lúcia Laércia comecou a enlouquecer e o nosso protagonista conseguiu a guarda da filha, Lauretta Laércia Mouzinho… porém a menina apesar de o ter aceitado como pai (ficara inclusive impressionada em descobrir-se bisneta de uma condessa russa); insistia em ser criada por um figura feminina, sendo que o jeito que o nosso protagonista encontrou para resolver tal questão foi levá-la para passar uma temporada com a tia Elvira (irmã de seu pai) em Sintra…

Em Portugal, Odaire Voltaire participou da agitação decorrente da Revolução dos Cravos, onde conheceu Glauber Rocha que viera para a terrinha, para participar como entrevistador do documentário “As Armas e o Povo” (**), inclusive há nesta película, uma cena no Rocio, onde podemos ver Odaire Volaire em meio a multidão…

3 -VOLTAR A IR

Em 1977 ele trouxe sua filha ao Brasil, para conhecer os avós maternos… Em Pindorama voltou a se encontrar com Glauber… desta vez aparece como coadjuvante na entrevista que o General Golbery do Couto e Silva concedeu para quadro do programa “Abertura” que o cineasta baiano fazia na TV Tupy.., Golbery tomando whisky junto a uma parede de tijolo aparente, comentando o golpe de 64…

A partir desta experiência com o cinema, Odaire Voltaire retomou o contato com sua infância, com a precoce participação em “La Strada” de Frederico Fellini… então a estória de nosso protagonista adquire dimensões épicas…

4 – DE VOLTA A REALIDADE

Seus amigos de bar não se cansam de ouvir seus feitos… muitos sabem que a foto dos “L’effervescente Zucchine” que ele mostra com tanto orgulho é na verdade uma foto dos Rolling Stones no início de carreira, em que os integrantes estão com os rostos meio encobertos pelo ângulo adotado pelo fotógrafo… sabem também que:

– Os aliados libertaram Roma em junho de 1944, por isso não haveria razão para um bombardeio ter ocorrido quatro meses depois de domínio aliado ;

– Ninguém em sã consciência faria o que Moacyr Mouzinho fez: fugir de Portugal de Salazar para Itália de Mussolini;

– O grupo terrorista de extrema esquerda “Brigate Rosse” (Brigadas Vermelhas) surgiu em 1970, portanto é absurda a estória que um ano após o “Apocalipopótese”, ou seja em 1969, alguém possa acusar Odaire Voltaire de pertencer a um grupo terrorista que nem sequer existia;

– “Piange il Telefono” não foi composta originalmente na língua italiana, na verdade é uma versão da canção francesa “Le Téléphone Pleure” ( letra de Franck Thomas e música de Jean-Pierre Bourtayre) que por sua vez é baseada (embora com melodia e letra diferentes) na canção country “Telephone Call” (George & Tammy & Tina, Telephone Call);

– O General Golbery do Couto e Silva jamais apareceu no programa “Abertura”… quem apareceu tomando whisky junto a uma parede de tijolo aparente, foi o jornalista e escritor Carlos Castello Branco, e não foi na TV… foi no filme “Terra em Transe”.

Seus amigos sabem, sabem que a lenda é mais divertida do que a realidade, sabem que o que Odaire Voltaire narra, não é sua vida real, mas um sonho, um sonho de pseudo-intelectual urbanóide … sabem que ele nasceu na verdade foi no bairro paulistano do Cambuci… sabem que sua avó não era condessa russa, mas uma camponesa da Calábria que imigrara para o Brasil… sabem que ele na verdade nunca saiu do estado de São Paulo… Eles sabem, mas deixam Odaire Voltaire contar, contar e contar… suas incríveis estórias… Sem elas a conversa no bar seria um tédio…

(*) “Eu irei me tornar artista”

(**) Filme coletivo realizado e produzido pelo sindicato português “Colectivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica”.

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CONSIDERAÇÕES DE UM ESCRITOR

Zelino Zamparini estava nervoso na manhã do lançamento de seu livro “Lágrimas Gargalhantes”… tomou banho fez a barba e vestiu uma roupa simples, colocou a bagagem sua e de sua mulher no carro, duas mochilas e um cabide com seu melhor paletó e o melhor vestido de sua cara-metade limpos e passados… fechou bem a casa e pé na estrada… de Echaporã até São Paulo são quase quinhentos quilômetros… por isto resolveram sair cedo, tomar o café da manhã no caminho e chegar na capital paulista na hora do almoço, se desse tempo iriam comer no Itamaraty…

– “Será que ainda está aberto? Vários lugares clássicos já haviam fechado, o Riviera, o Parreirinha, e dizem até que a rotisserie Bologna havia fechado”…

Definitivamente São Paulo já não era mais a mesma do tempo em que eles moravam… na verdade nenhum lugar nunca é… aquele velho papo que Heráclito contava sobre ninguém poder banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois as águas já não eram mais as mesmas…

No caminho foram ouvindo músicas country tocadas por roqueiros do final dos anos sessenta e início dos setenta: Sweetheart Of The Rodeo (Byrds), Beggar´s Banquet e Let It Bleed (The Rolling Stones), “The High Lonesome Sound of The Flying Burrito Brothers” e muitas outras enquanto seu carro deslizava entre os canaviais ensolarados…

Após certos transtornos para adentrar a cidade, o nosso protagonista e sua esposa Pietra deixaram o carro em um estacionamento ao lado do hotel…

– ”Agora chega de dirigir… vamos pegar o metrô até a São Bento, lá fora veremos de novo o mural pintado pelo Maurício Nogueira Lima depois iremos dar uma rezadinha no Mosteiro de São Bento, depois Itamaraty, será que ainda tem aquele arroz-de-polvo? combina com vinho verde…”

Após fazerem o planejado e tirarem um merecido cochilo Zelino e Pietra Zamparini tomaram outro banho e vestiram suas melhores roupas… na rua tomaram um café expresso e foram direto para a livraria…. ele estava curioso pois havia visto a capa de “Lágrimas Gargalhantes” somente via internet e agora iria vê-la impressa de verdade…

– “Ficou bom!!!”

“Lágrimas Gargalhantes” era definitivamente o melhor livro do ano: era um romance passado em Cluj-Napoca (Romênia) sobre uma adolescente orfã chamada Ionela, que apesar de magrinha, branquela e com orelhas de abano possuia lindos olhos lilases e cuja única alegria era o cachorro chamado Vlavlash… porém um dia, o cãozinho cai em um bueiro e é devorado por ratazanas famintas… a partir daí ocorre uma sucessão de desgraças, até que Ionela encontra um antigo saco-de-risadas em uma lata de lixo, então de posse do seu brinquedinho o mundo passa a ter um outro significado e começam a ocorrer uma série de coisas boas…. porém um dia o saco-de-risadas cai no rio Someşul Mic e então a menina decide deixar a Romênia e ir para Piriápolis no Uruguai, onde vivia sua tia Raluca…

O lançamento foi um sucesso de público e crítica, surgiu até um convite para a próxima Flip em Paraty… o nosso protagonista aproveitou também para encontrar familiares e amigos indo comemorar depois no Le Casserole no Largo do Arouche…

No dia seguinte antes de retornar decidiram dar uma passada em um shopping center para comprar um brinquedo para seu sobrinho, e ao adentrar a loja de brinquedos não acreditaram no que viram:
Uma senhora com uma bolsa de couro contendo uma garrafa térmica e uma cuia de mate, segurava pela mão uma adolescente magrinha, branquela e com orelhas de abano e lindos olhos lilases que por sua vez examinava um saco-de-risadas na prateleira da loja… Não era um saco-de-risadas laranja como aqueles dos anos setenta, era colorido e moderninho…

Pietra então olhou perplexa para o seu marido e disse:

– Não acredito!!! Elas não podem ser reais!!! Elas são personagens do seu livro!!!

Zelino Zamparini sorriu vagarosamente… ficou alguns instantes em silêncio e exclamou:

– Ora querida, todos nós fomos, somos ou seremos personagens de algum romance, conto ou novela… essas duas com certeza são as personagens do meu livro, mas nós dois por exemplo podemos ser personagens de um pequeno romance de um artista desconhecido ou até mesmo de um mini-conto publicados em uma destas boas revistas eletrônicas que estão surgindo…

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EM MEMÓRIA DE UM GRANDE AMIGO

Já era domingo, e Josias Germano ainda não havia escrito a crônica em homenagem a seu grande amigo, Pedro Venâncio, que havia falecido há menos de duas semanas… um enfarte o levara e olha que seu amigo nadava todo o dia, não fumava, bebia pouco, se alimentava bem… porém o destino ninguém entende…

O nosso protagonista e a sua esposa Marília Olávia, tomaram um belo café da manhã: suco de maracujá, mamão, sanduíche de queijo, presunto crú no pão caseiro, chá com limão siciliano… porém ela observou que ele andara pensativo…

Ele estava indeciso… ora pensava em escrever uma crônica que falasse sobre a amizade com Pedro Venâncio sob uma perspectiva sequencial, ou seja, desde quando o conhecera no ginásio, as festas na juventude, a amizade com seus pais, seus irmãos, os casamentos, o trabalho na mesma empresa, o observar o crescimento de seus filhos, as conversas sobre viagens, literatura e futebol, a notícia sobre sua morte… ora pensava em escrever sobre, quando após missa de sétimo dia, ele e outros amigos Jaunyr, Ringo e Papagaio rumaram para um boteco de esquina no bairro da Aclimação para bebericar relembrando as estórias de Pedro Venâncio, frio intenso, uísque, cerveja e espetinhos, as lembranças das farras em comum, das viagens…

Depois do café-da manhã Josias Germano foi ao supermercado, comprou água com gás, cerveja de garrafa, laranja, mexerica morgot, melão gaia, batata asterix, escarola, maracujá, grapefruit, banana, pasta de dente… precisava ir buscar a cesta básica mensal no centro da cidade, mas antes resolveu parar no boteco da frente e tomar uma cerveja artesanal bem amarga… acabou bebendo uma “american india pale ale” feita em Pindorama… na ensolarada mesa de bar ele tentava pensar em um desfecho para a crônica, porém nada feito… então foi buscar a cesta básica.

Já na cozinha de sua casa, o nosso protagonista cortou uma peça de bife ancho em generosos pedaços enquanto bebia fartos goles de cerveja irlandesa… sua fiel escudeira então pegou o suplemento cultural que sai aos domingos no jornal, e resolveu ler para ele um poema de Omar Khayyám (traduzido por Luiz Antônio de Figueiredo):

“Vamos gozar, Amor, cada breve Momento!
Logo seremos Pó, levado pelo Vento!
Pó jazendo no Pó, e sob o Pó da tumba,
sem Vinho, sem Cantor, sem Música ou lamento!”

Então Josias Germano compreendeu… ele entendeu a lição dada pela partida de seu amigo, justamente aquele que não falava mal de ninguém e também do qual ninguém falava mal: perdemos muito tempo em picuinhas, grande parte de nosso pensamentos são destinados a besteiras… nos preocupamos com coisas que não fazem o menor sentido… precisamos viver, viver sem ter que pensar em coisas pequenas, viver sem nos desgastarmos em rotinas… viver cada momento: “Todo dia é dia D” como dizia Torquato Neto.

O nosso protagonista e sua fiel escudeira cortaram as batatas asterix e as dispuseram em uma assadeira com azeite, alho, sal grosso e alecrim… direto para o forno…também cortaram a escarola e fizerem um molho a base de azeite, vinagre de vinho, sal e pimenta do reino… grelharam os pedaços de bife ancho e comeram com a salada e as batatas, compreendendo que aquele era um momento único, que estas sãos as grandes coisas da vida, que aquele dia era o dia A, o dia B, o dia C e também era o dia D.

Então ele escreveu uma crônica sobre o seu almoço, pois apreciar cada pequeno momento da vida, descobrir uma epifania nas coisas mais simples era a melhor maneira de prestar homenagem ao seu grande amigo…

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