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{ Tag Archives } literatura

PALMEIRAS SELVAGENS – William Faulkner – Tradução: Newton Goldman – Círculo do Livro

Famoso pela frase “entre a dor e o nada, escolherei a dor”, este livro contém duas estórias que são narradas de forma intercalada: “Palmeiras Selvagens” e “O Velho”, que até podem ser lidas independentemente pulando os capítulos, uma da outra… a primeira é sobre um estudante de medicina que conhece uma mulher mais velha, casada com dois filhos, ela foge com ele e vão formar uma casal que vive de formas alternativas em diversos locais, antecipando o movimento hippie… a segunda história é sobre um presidiário que em meio a uma enchente do rio Missisipi, acaba escapando acidentalmente numa canoa, sendo que em determinada hora ele acaba dando carona a uma mulher grávida, porém ele só pensa em deixá-la em um local seguro e retornar a prisão…

Faulkner disse uma vez que publicou estas estórias em um mesmo livro pois ambas eram curtas demais para serem publicadas separadamente… é óbvio que ele estava brincando… ambas dialogam entre si (não vou entrar em detalhes para não adiantar as narrativas).

Para os personagens de Faulkner não existe o livre-arbítrio, parece que seus personagens rumam a um trágico abismo… mesmo com Wilbourne, entre a dor e o nada, ter optado pela dor, a impressão que tenho é que ele não a escolheu… ele sempre for a atraído pela dor, como um prego é atraído por um imã… 

Faulkner apresenta uma escrita aparentemente realista que utiliza uma linguagem rebuscada, mas lendo suas obras com atenção, percebemos que por trás de tudo existe um mundo sem sentido algum, cheio de som e de fúria… cuja história é contada por um idiota, como já dizia Shakespeare…

Um fato curioso é que Glauber Rocha sempre quis filmar este livro… na minha opinião esta é uma das obras literárias mais difíceis de serem transpostas para o cinema, por razões puramente técnicas, imagine filmar uma enchente no Mississipi, uma mina de carvão abandonada em meio a nevascas, entre outras coisas… 

Tentei ler este livro no final dos anos 80 e desisti… agora consegui desfrutar esta obra de Faulkner, escritor do qual só havia lido “O Som e a Fúria”… No cinema só vi “Uma Aventura na Martinica” filme dirigido por Howard Hawks e estrelado por Humphey Bogart e Lauren Bacall, que Faulkner adaptou a partir de um livro de Ernest Hemingway, “Ter e não ter”.

Desejo agora, não só ler seus outros livros, mas também ver a adaptações de suas obras para o cinema, dentre elas “O Mercador de Almas” (1958) dirigido por Martin Ritt e estrelado por Orson Welles, Joane Woodward e Paul Newman… 

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RICARDO III – William Shakespeare – Tradução: Barbara Heliodora –Editora Nova Fronteira

Aos poucos vou lendo a obra do bardo inglês…  e quando tiver lido grande parte dela pretendo ler “Shakespeare: a invenção do humano” de Harold Bloom, livro no qual o critico literário afirma que o comportamento humano atual é derivado da obra de Shakespeare, tese bastante interessante.

Nesta obra, temos a história de Ricardo III, o último rei  da dinastia Platangeneta, que foi derrotado por Henrique VII, o primeiro rei da dinastia Tudor. Henrique VII , pai do lendário Henrique VIII era também avô da Elisabeth I, que encomendou a peça a Shakespeare. Não é a toa que Ricardo III é retratado da pior forma: corcunda, mau caráter e assassino:  com um braço atrofiado e com um caráter também deformado, ele não mede esforços para chegar ao poder. 

Na verdade Ricardo III nunca foi corcunda… (especialistas analisaram eu esqueleto e verificaram que ele tinha uma escoliose avançada) e muito provavelmente a obra de Shakespeare foi baseada nas fake news existentes nas crônicas de Halle,  Holinshed e na biografia suspeita escrita por Thomas More.

Independente da veracidade histórica, Ricardo III  é uma grande peça, mistura tragédia, comédia, e até um pouco de romance (a cantada que Ricardo III dá em Anne Neville, afirmando que matara o seu marido e o seu sogro por ciúmes e propondo um casamento, é uma obra-prima da retórica do mau-caratismo).

Leiam, um grande autor como Shakespeare, sempre irá nos surpeender!!!

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ULYSSES – James Joyce – Editora Penguin /Companhia das Letras – Tradução Caetano W. Galindo 

SIM, EU DIGO SIM – Caetano W. Galindo  – Editora Companhia das Letras 

Neste ano, além do centenário da Semana de Arte Moderna, outro evento na história da arte também completa 100 anos: a publicação de “Ulisses” de James Joyce.

Finalmente terminei minha segunda releitura de Ulisses… ganhei de meu pai em meados dos anos 80 a primeira tradução em português de Antônio Houaiss… tentei ler umas duas vezes, mas não fui adiante… Em 2000 finalmente tomei coragem e consegui ler… cinco anos depois, quando foi publicada a segunda tradução do livro, a cargo da Bernardina da Silveira Pinheiro, eu fiz minha primeira releitura, amparado não só nas notas da tradutora (*) como no livro “Homem Comum Enfim” de Anthony Burguess e no guia das ruas de Dublin (Eyewitness Travel Guides).

Agora finalizei a segunda releitura, a tradução de Caetano W. Galindo, complementando com seu livro explicativo, com releituras a diversos contos de Dublinenses (do mesmo autor), com o site Ulysses Guide https://www.ulyssesguide.com/(que possibilita verificarmos os locais em que são passados o romance), com trechos do livro “James Joyce e Seus Tradutores” – Dirce Waltrick do Amarante – Editora Iluminuras e com o artigo “De Ulysses a Ulisses” de Augusto de Campos publicado no livro “Panaroma do Finnegans Wake” – Editora Perspectiva. 

Um livro é como o mar, você pode nadar na superficie com uma máscara e um snorkel e observer superficiamente, você pode mergulhar com uma roupa de neoprene e um cilindro de oxigênio e observar melhor suas profundidades ou pode usar um escafandro e ir até os abismos marinhos…  é obvio que nem toda a superfície marinha é profunda e em parte dela não precisamos de escafandros, como também na literatura também existem livros nos quais não conseguimos nos aprofundar, porém existem livros que possibilitam diversos níveis de leitura…

Ulisses, a grosso modo, é a narração de um dia cotidiano de um homem comum (Leopold Bloom), sua mulher (Molly Bloom) e um jovem (Stephen Dedalus), mostrando paralelos com um epopéia (no caso a Odisséia), mostrando que no dia-a-dia de um simples cidadão ou cidadã, podem estar imbuídos acontecimentos épicos, que muitas vezes passam despercebidos. Mas este paralelismo entre “Ulisses” e a ”Odisséia” embora exista, não é tão rígido como possa parecer…  existem outros paralelos entre “Ulisses” e outras obras, que nem todos percebem: por exemplo, no capítulo inicial o personagem Stephen Dedalus ao imaginar o fantasma da mãe falecida na torre onde habitava, evoca a aparição do fantasma do rei assassinado que vemos no início de Hamlet…

Na verdade a mágica de “Ulisses” está na linguagem… esta é a meu ver o principal personagem… não só cada um dos dezoito capítulos é escrito em uma linguagem específica, como no episódio “Gado ao Sol” temos um estilo que começa salustiano-tacitiano, passando a um inglês aliterativo e monossilábico, depois a um estilo elizabeteano, depois ao estilo miltoniano até chegar numa mistura de inglês pidning, inglês negro, cockney, irlandês, giria bowery, etc. Este episódio se passa em uma maternidade, quando Bloom resolve visitar uma conhecida que está para dar a luz e encontra Stephen no bar da maternidade pagando bebidas para seus amigos. A evolução da língua inglesa (mostrada nesta diversidade de estilos) é comparada a evolução do feto, do óvulo até o nascimento…

Esta variância de estilos é o grande desafio enfrentado pelos tradutores, além do problema dos neologismos (palavras compostas)… Este é um capítulo a parte. As línguas inglesa e alemã, já possuem palavras compostas como no inglês “typewriter” (tipo+escritor: máquina de escrever) ou no alemão “streichholzschachtel” (risco+madeira+caixa: caixa de fósforos).

 No português não temos normalmente estes neologismos, embora alguns precursores de uma nova linguagem já tenham criado coisas como “olhicerúlea” “criniazul” (Odorico Mendes), “capribarbicornipedesfelpudos” (Filinto Elísio) e “verdevivas” “luz-negrores” (Sousândrade) ,escritores estes já falecidos antes de James Joyce conceber Ulisses. 

Porém para traduzir Ulisses, nossos três heróis (Houaiss, Belarmina e Galindo) tiveram que se virar, criando soluções não só para estas palavras compostas, como para os palíndromos, aliterações, rimas internas e outros recursos literários… soluções estas, muitas vezes geniais, outras vezes deixando um pouco a desejar em face das características das linguas inglesa e portuguesa… mas se compararmos com as traduções francesa, espanhola e italiana, as traduções brasileiras saem ganhando…

Para finalizar, aqui vai a versão de uma das mais belas frases do livro nas três traduções:

 “The heaventree of stars hung with humid nightblue fruit”

“A árvorecéu de estrelas pejada de húmido fruto úmido noitazul.” (António Houaiss)

“A árvorecéu de estrelas pairava com o fruto úmido da noiteazul.” (Bernardina da Silveira Pinheiro)

“A celestárvore de estrelas prenhe de úmido fruto azulnoturno.” (Caetano Galindo)

 (*) A tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro tem um diferencial: em suas notas estão traduzidos os trechos de Ulisses escritos em outras linguas (latim, grego, francês, italiano, alemão, hebraico, húngaro, etc.) Eu mesmo nesta releitura da tradução do Caetano Galindo, muitas vezes consultei a tradução da Belarmina para verificar estas notas. Se você quiser se aventurar nesta difícil empreitada, eu recomendo a tradução da Bernardina da Silveira Pinheiro como a mais apropriada.

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POETA CHILENO – Alajandro Zambra – Companhia das Letras – Tradução: Miguel Del Castillo

Este é um livro sobre a relação entre um padrasto e um enteado, suas reservas, suas cumplicidades, seus afetos seus silêncios…

Este é um livro sobre o mundinho dos escritores de um país sul-americano: suas mesquinharias, suas panelinhas, suas pequenas vaidades…

Este é um livro sobre o desencanto das mulheres com o mundo masculino: seu egoísmo, sua falta de diálogo, seu machismo…

Este é um livro sobre a cidade de Santiago: suas esquinas, suas livrarias, suas praças, seus bares e restaurantes…

Este é um livro sobre as pessoas que não venceram na vida (aliás sobre este conceito absurdo, fica aqui uma observação do cronista Antônio Maria que dizia que “a vida não é um páreo para ter vencedores e mesmo que fosse, todos os corredores chegariam empatados”).

Mas acima de tudo, este é um livro sobre a poesia chilena, afinal um país com dois prêmios Nobel em literatura, ambos poetas, é como um país Bicampeão Mundial em poesia… quem ler não só a estória do livro , mas pelo menos três poemas de cada autor citado, será contemplado com uma porção da produção poética de um país Bicampeão Mundial em poesia… e isto não é pouco…

Além dos contemplados com o Prêmio Nobel, Gabriela Mistral e Pablo Neruda, são citados Miguel Arteche, Gonzalo Rojas, Gonzalo Muñoz, Gonzalo Millán, Carlos Pezoa Véliz, Pablo de Rokha, Oscar Hahn, Claudio Bertoni, Verónica Jiménez, Elvira Hernández, Yanko González Henry Lihn, Raúl Zurita, Vicente Huidobro, etc. 

Também temos citações de outros poetas não chilenos como as americanas Marianne Moore e Emily Dikson, o boliviano Jaime Sáenz, o grego Yorgo Seferis, o peruano Luiz Hernández, o argentino Santiago Llach e até o brasileiro Haroldo de Campos…

Por fim, este livro é também uma homenagem ao escritor chileno Roberto Bolaño… a certa altura a personagem Pru (uma jornalista norte-americana) afirma que os personagens Vicente e Pato parecem personagens de Bolaño… quem já leu “Detetives Selvagens” irá perceber a semelhança com a dupla de personagens Arturo Belano e Ulisses Lima… 

Roberto Bolaño (para mim o maior romancista e contista chileno) também era poeta… Pato achava que Bolaño era um poeta menor… Vicente per sua vez achava-o bom, porém não na categoria de um Henrique Lihn… 

Saiu recentemente em Pindorama o único livro de poemas de Bolaño “A Univeridade Desconhecida”… leiam também este livro e vejam quem tem razão: Pato, Vicente ou nenhum dos dois…

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AS IF THE SEA SHOULD PART AND SHOW A FURTHER SEA

O título foi inspirado em um poema de Emily DIckson… adorei a imagem de um mar rompido mostrando outro mar.

Como se o Mar rompesse
Mostrando um outro Mar ―
E fosse ― um outro ― nesse
Mar ainda pré-formar ―

Mares do Mar ― que invade
As Praias singulares
De outros futuros Mares ―
Nestes ― a Eternidade ―

As if the Sea should part
And show a further Sea ―
And that ― a further ― and the There
But a presumption be ―

Of Periods of Seas ―
Unvisited of Shores ―
Themselves the Verge of Seas to be ―
Eternity ― is Those ―

(Tradução Augusto de Campos)

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I’m Nobody! Who are you?
Are you — Nobody — too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise — you know!

How dreary — to be — Somebody!
How public — like a Frog —
To tell one’s name — the livelong June —
To an admiring Bog!

(Tradução Augusto de Campos)

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YO SIEMPRE REGRESSO A LOS PEZONES Y AL PUNTO 7 DEL TRACTATUS – Agustin Fernández Mallo – Editora Alfaguara

Em um hotel vazio devido ao final da temporada de turismo em Mahón, a capital de Menorca (uma das ilhas Baleares da Espanha)… um homem dialoga com o fantasma da mulher que o abandonou…  O relato, um discurso amoroso fraturado através de uma série de poemas em prosa narrados de maneira fragmentária, em um tom estóico no qual se destacam alguns oxímoros (*) e paradoxos (**) em que alguns trechos escritos reaparecem ao longo da obra (como na música clássica serialista), mostra a cidade abandonada devido ao final da temporada turística, relembra as horas de amor, os porres de gin, os passeios pela ilha, a paisagem portuária, etc.

Várias destas situações são comentadas por um personagem insólito: o pictograma masculino na porta do banheiro  do bar frequentado pelo narrador, vejam um exemplo: 

“Quando a mulher que te espera sentada naquela mesa ali, te abandonar , você vai acessar um lugar inconcebível até então, como apertar simultâneamente as teclas Enter e Escape, como eu, que por escrever grosserias nas paredes fui condenado a morrer e a não morrer aqui crucificado (parafusado como eles dizem), me disse o bonequinho do banheiro.” (a tradução é minha)

Na minha opinião este é o fator mais revolucionário desta obra: o pictograma masculino na porta do banheiro (el monigote de la puerta W.C.)… na poesia concreta os pictogramas foram incorporados como elementos gráficos na estrutura do poema… nesta obra, porém o pictograma não é mais aquele elemento gráfico, mas sim um personagem, na verdade o único interlocutor com o narrador… Quem conhece um pouco semiótica irá perceber até onde Agustín Fernández Mallo chegou… Muito provavelmente Décio Pignatari não leu este livro (***) mas se lesse iria adorar…

(*)“Pássaros sem céu, chuva sem céu, planetas sem céu…”

(**) “te busco e te encontro. Não te busco e também te encontro”

(***) Esta obra foi publicada originalmente em 2001 em uma tiragem reduzida sem distribuição em livrarias e só foi republicado em 2012 (ano do falecimento de Décio Pignatari).

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CAMPO SANTO – W.G. Sebald – Companhia das Letras – Tradução: Kristina Michahelles

Estes escritos póstumamente publicados de Sebald provem de duas fontes distintas: a primeira são esboços de um livro nunca concluído, misto de relato de viagem e ensaios filosóficos, na mesma linha do “Os Anéis de Saturno”, só que no lugar do litoral sudoeste da Inglaterra, o local visitado foi a Córsega… a segunda fonte são críticas literárias que foram lançadas em diversas revistas literárias e agora vem à tona agrupadas…

Da segunda parte, valem as observações sobre as pinturas de Peter Weiss, o resumo sobre a livro “Tinset” de Wolfgang Hildesheimeiner (que dificilmente irei ler em face não haver tradução na lingua portuguesa), sobre o livro “Kafka vai ao Cinema” de Hans Zischler, sobre a obra de Bruce Chatwin, cujo livro”Patagônia” pretendo ler, em breve…

Da parte inicial o destaque fica por conta do texto que dá nome ao livro: “Campo Santo”, um ensaio sobre o passeio que o escritor fez ao cemitério de Piana, descrevendo sua vegetação com herbários autocónes, a disposição das sepulturas segundo as classes sociais, os rituais de luto elaborados, bem como o costume dos locais de trajar roupas de luto por um longo periodo, o que fazia com que a paisagem local lembrasse as pinturas de Nicolas Poussin (“A Morte de Germânico”, “Massacre dos Inocentes”). Mas o mais impressionante são as lendas sobre os agrupamentos formados pelas pessoas falecidas a “communitá dei defunti” que vagavam pelos campos sussurando em voz de falsete, em uma conversa na qual única coisa que os humanos normais conseguiam distiguir era o nome da próxima pessoa que viria a integrar o tenebroso grupo… Outra lenda interessante é sobre os “acciatori”, pessoas que durante a noite deixavam seus corpos (em uma espécie de viagem astral) e ficavam agachados junto a rios ou fontes e esganavam coelhos ou raposas que vinham beber água e reconheciam no rosto dos animaizinhos agonizantes, o rosto do próximo membro da comunidade que iria falecer… porém, hoje está tudo mudado… e no final do texto Sebald dá sua explicação sobre o motive da mudança:

“Para onde vão os mortos de Buenos Aires e São Paulo, da Cidade do México, de Lagos e do Cairo, de Tóquio, Xangai e Mumbai? Pouquíssimos irão para uma tumba fria. E quem ainda se lembrará deles? Quem é que se lembra, de maneira geral? Memória, conservação e manutenção, escreveu Pierre Bertaux sobre a mutação da humanidade trinta anos atrás, tinham importância vital apenas numa época em que a densidade demográfia era reduzida, os objetos produzidos mais escassos e o espaço, abundante. Não se podia abrir mão de ninguém, mesmo que já tivesse morrido. Já nas paisagens urbanas do final do século XX, em que qualquer um pode ser substituído e, na verdade já é excedente desde a hora em que nasceu, importa em descartar continuamente tudo de que podemos nos lembrar, esquecendo-nos sem piedade da juventude, da infância, da origem, dos antepassados e dos ancestrais.”

Penso que só este conceito de que “hoje somos excedentes desde a hora que nascemos” já vale o livro, mas para quem nunca W. G, Sebald eu recomendo que antes leiam “Os Anéis de Saturno” ou “Austerlitz” que foram obras concebidas em integridade, seja em um relato de viagem filosófico, seja em uma obra de ficção… porém quando o escritor tem talento, qualquer “catadão de textos” já vale a pena…

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AUSTERLITZ – W. G. Sebald – Tradução: José Marcos Macedo – Editora: Companhia das Letras

Este é um daqueles livros em que o narrador encontra uma pessoa que narra a sua estória… porém diferentemente de “A Sonata de Kreutzer” (Tostói) ou “Grande Sertão Veredas” (Guimarães Rosa) onde o personagem conta sua vida em uma só tacada, no livro de Sebald a estória é contada aos solavancos… no início o narrador encontra o personagem, Austerlitz, por acaso na estação ferroviária de Antuérpia, onde divagam primeiro sobre a arquitetura daquela estação projetada por Louis Delacenserie, passando a conversar sobre a arquitetura militar, em especial sobre a fortificação em forma de pentágono construída para defender Antuérpia projetada pelo engenheiro italiano Francesco Paciotto. Tempos depois, voltam a se encontrar por acaso em Liége e em Zeebruge, quando o narrador descobre que Austerlitz é um professor de história da arte residente em Londres e passa a visitá-lo sempre que vai para capital inglesa… Porém eles perdem o contato por duas décadas e só voltam a se encontrar por acaso na estação ferroviária de Liverpool, onde a conversa é retomada do ponto em que tinha sido interrompida …

Diferentemente também dos livros retomencionados, é que neste caso Austerlitz a princípio não sabe bem qual é a sua própria estória, pois fora criado no País de Gales por pais adotivos e aos quatorze anos descobre que seu nome verdadeiro não era Dafydd Elias, mas Jacques Austerlitz… e enquanto vai esporadicamente se encontrando com o narrador e discutindo os mais diversos assuntos, Austerlitz vai descobrindo seu passado e para tal, percorrendo outros países e aprendendo outras línguas …

Em meio esta narrativa, temos considerações sobre os cercos de Antuérpia (em 1832 e em 1914), a batalha de Austerlitz (onde Napoleão derrotou as forcas russas e austríacas em 1805), uma aquarela de Turner (“Funeral at Lausanne”), a arquitetura de diversas estações ferroviárias, a história de Terezín (uma fortificação tcheca construída e no século XVIII que se tornou um campo de concentração na Segunda Guerra Mundial), a construção da Biblioteca Nacional da França (um monstrengo projetado por Dominique Perrault, na série de monumentos horrorosos que a gestão de Mitterand impingiu à cidade-luz como aquela pirâmide medonha no Louvre), com o respectivo fechamento da Biblioteca Richilieu (*) muito mais charmosa e aconchegante, a cidade balneário de Mariembad (Mariánské Lázně), o pintor italiano Gastone Novelli (que chegou a residir no Brasil entre 1950 e 1954, participando das duas primeiras Bienais de São Paulo), etc.

Enfim, trata-se de uma grande obra, misto de ficção, ensaio e relatos de viagem, ilustrada com uma série das mais estranhas fotografias (que o personagem teria doado ao narrador)… vale a pena ler, principalmente pela noção de um capitalismo nebuloso e crepuscular no qual a opressão, a crueldade, a ganância e uma demência disfarçada de racionalidade, permeiam uma suposta ordenação do espaço urbano e rural, gerando cenários de abandono e desolação em ambientes desumanos supostamente glamurarizados… Leiam!!!

(*) Construída em 1635 a Biblioteca Richilieu estava fechada em 2001 (quando Sebald escreveu este livro, mas felizmente foi reaberta em 2016).

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RICARDO II – William Shakespeare – Tradução: Barbara Heliodora – Editora Nova Fronteira

Outro dia, lendo “A Sombra do Vulcão” de Malcolm Lowry, deparei-me com uma citação de Shakespeare sobre um “cormorão (*) insaciável”. Fui pesquisar e descobri que a frase do bardo inglês estava na peça Ricardo II:

“A vaidade, cormorão insaciável, devorando seus meios, devora a si próprio.”

Após um tempo, finalmente li “Ricardo II”, peça histórica baseada no personagem homônimo, também conhecido como Ricardo de Bordeaux, que governou a Inglaterra entre 1377 e 1399. É a única peça de Shakespeare que trata sobre a deposição de um rei… No caso, Ricardo II, acusado de ter tramado o assassinato de seu tio para ususpar o trono, se vê obrigado a exilar seu primo Henrique de Bolingbroke, duque de Hereford, que havia se envolvido em um duelo com outro nobre, Mowbray, Duque de Norfolk.

Após a morte do Duque de Lancaster, Conde de Gaunt (pai de Bolingbroke e proclamador da frase retromencionada), Ricardo II usurpa os bens de seu primo e vai para a Irlanda combater os rebeldes. É interessante que como ele não tinha dinheiro para sustentar esta guerra, ele toma emprestado de outros poderosos e concede aos mesmos os direitos de cobrar impostos da população (ou seja, no século XIV já existiam as privatizações).

Henrique volta do exílio com um exército e os nobres descontentes com o governo de Ricardo II, decidem se unir a ele… quando o rei retorna da Irlanda, verifica que não possui mais apoio e abdica em favor de seu primo, que passa a se chamar Henrique IV.

Quando na prisão, entre momentos de loucura e arrependimento, Ricardo II profere vários discursos que são o ponto alto da obra:

“Gastei meu tempo, e hoje o tempo me gasta; O tempo fez de mim o seu relógio: Idéias são minutos, que suspiram Marcando em meu olhar, o mostrador, A hora que o meu dedo, que é ponteiro, Fica indicando, ao me limpar as lágrimas.”

Talvez o ponto mais interessante desta peça (e talvez de todas as obras históricas de Shakesperare) seja o distanciamento entre a figura histórica de Ricardo II (que jamais teria a capacidade de elaborar um discurso tão requintado) e o personagem shakesperiano Ricardo II… ou seja, uma obra de arte é uma uma obra de arte e não uma biografia: a grandeza de um autor, seja escritor, dramaturgo, cineasta ou ator é enriquecer e dar complexidade ao personagem histórico… não fazer igualzinho, tim-tim por tim-tim.

Seja como for,como diria Harold Bloom, é lendo Shakespeare é que nos tornamos civilizados.

(*) cormorão: corvo-marinho, no Brasil também é conhecido como biguá

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